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Guia para entender a crise entre a Arábia Saudita e o Líbano

gustavochacra

11 Novembro 2017 | 12h43

O que ocorreu na disputa entre o Líbano e Arábia Saudita?

O premiê do Líbano, no dia 3 de novembro, viajou de surpresa para a Arábia Saudita a pedido do príncipe Mohammad bin Salman, mais conhecido como MBS, líder de fato do regime em Riad. No dia seguinte, o primeiro-ministro libanês surpreendeu a todos ao ler uma carta de renúncia ao cargo e dizer ter sido ameaçado de ser alvo de um atentado pelo o Irã e o Hezbollah. Nesta mesma data, horas depois, uma série de príncipes, ministros e outras autoridades sauditas foram presas pelo regime saudita.

E por que é estranha a história da renúncia?

Hariri integrava um governo de união nacional no Líbano. De um lado, estava a sua coalizão, aliada da Arábia Saudita e dos EUA, formada pela maioria dos sunitas e alguns grupos cristãos. Do outro, uma aliança, apoiada pelo Irã e pela Síria, formada por grupos xiitas como o Hezbollah e a Amal e a maior parte dos partidos cristãos, como a Frente Patriótica Nacional. No ano passado, as duas coalizões rivais chegaram a um acordo para a formação de um governo de união nacional para evitar que o caos do Oriente Médio atingisse o Líbano. Michel Aoun, mais importante líder político cristão do país e aliado do Hezbollah, foi eleito presidente (cargo reservado aos cristãos maronitas), agradando aos cristãos e xiitas. Saad Hariri foi eleito premiê, agradando aos sunitas (cargo reservado aos sunitas). A Presidência do Parlamento (cargo reservado aos xiitas) seguiu com Nabi Berri, da AMAL). E o Hezbollah pôde manter seu Estado paralelo e sua milícia própria. Esta união vinha funcionando muito bem literalmente até o dia 3 de novembro. Não fazia sentido Hariri renunciar.

Qual o argumento para dizer que Hariri teria sido forçado a renunciar?

Primeiro, não fazia sentido Hariri renunciar neste momento, quando o governo do Líbano estava sólido. Em segundo lugar, não há nenhuma indicação das autoridades de segurança libanesa de ameaça contra a segurança dele. Terceiro, a viagem para Riad foi uma surpresa e ele não pôde levar seus assessores. Quarto, o texto da renúncia não foi escrito pelos assessores de Hariri, que foram pegos de surpresa. Quinto, Hariri tinha uma proximidade grande com alguns dos príncipes sauditas presos. Sexto, há uma série de relatos em Beirute e Riad de que ele está detido. Por último, mesmo partidários de Hariri em Beirute avaliam que ele foi pode ter sido obrigado a renunciar. O mesmo vale para o presidente Aoun. Isto é, não se trata de algo que apenas o Hezbollah fala.

 Mas qual seria a lógica de a Arábia Saudita obriga-lo a renunciar?

Primeiro, MBS tem como uma de suas metas bater de frente com o Irã no Oriente Médio. Isso ocorre no Yemen, no Qatar e também na Síria. Na visão dele, o governo de união nacional no Líbano dava um certo verniz de legitimidade para o grupo xiita, considerado terrorista pelos sauditas, israelenses e americanos. Portanto, na visão dele, a saída de Hariri poderia isolar o Hezbollah e abrir espaço para maior pressão internacional contra a organização. Em segundo lugar, Hariri nasceu na Arábia Saudita, onde seu pai Rafik Hariri, ex-premiê do Líbano e morto em atentado atribuído ao Hezbollah (o grupo nega), fez fortuna. Mas a família Hariri possuía relações com braços da família saudita que passaram a ser perseguidos desde a chegada de MBS (ou de seu pai, rei Salman) ao poder. O regime de Riad, portanto, poderia ter “sujeiras” de Saad Hariri e o estaria chantageando.

E os que dizem que ele não teria sido forçado a renunciar?

O regime saudita argumenta que diplomatas puderam se encontrar com Saad Hariri e ele teria ido até os Emirados Árabes. Mas estes mesmo diplomatas dizem em off para jornalistas que o encontro com o premiê foi estranho e aparentemente ele não estava livre para falar. A viagem aos Emirados Árabes não teria muito significado, já que o país é o maior aliado saudita. Além disso, mesmo os aliados de Hariri no Líbano não conseguem se comunicar com ele. O premiê poderia ir para Paris, por exemplo, onde tem casa, ou voltar a Beirute.

Como está o cenário atual?

A Arábia Saudita fez um gol contra. No Líbano, há quase um consenso de que Hariri foi forçado a renunciar. Desta forma, o Hezbollah e o presidente Aoun saem fortalecidos. Pior para os sauditas, seu maior aliado era justamente Hariri. Quem eles terão agora no Líbano como aliados? Mais grave, independentemente de ser cristão, xiita ou sunita, quase não há ninguém que goste da Arábia Saudita no Líbano. O Irã, de fato, tem muitos inimigos em Beirute. Mas também tem simpatizantes. Esta, portanto, é a terceira vez que o príncipe saudita parece ter errado em uma ação geopolítica – há o fracasso na Guerra do Yemem e na tentativa de isolar o Qatar.