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Guia para entender a disputa por Jerusalém

gustavochacra

21 Dezembro 2017 | 22h38

A Assembleia Geral da ONU condenou a declaração de Donald Trump reconhecendo Jerusalém como capital de Israel e acrescentando que, no futuro, mudará a embaixada, atualmente em Tel Aviv, para a cidade. Foram 128 votos contra a posição adotada pelo presidente dos EUA e nove a favor (além dos americanos e dos israelenses, Guatemala, Honduras, Ilhas Marshall , Micronesia, Nauru, Palau e Togo), além de 35 abstenções (incluindo países como Canadá, México e Argentina).

Neste post, mais uma vez, tentarei explicar os lados envolvidos na questão de Jerusalém.

 O que reivindica Israel?

Israel reivindica Jerusalém como a sua capital eterna e indivisível. Argumenta que há uma ligação de milhares de anos entre o povo judaico e a cidade. Acrescenta que apenas com o domínio israelenses todos tiveram liberdade para praticar suas religiões nos lugares sagrados da cidade, lembrando dos obstáculos para judeus irem ao Muro das Lamentações durante o domínio da Jordânia entre 1948 e 1967, quando os israelenses reunificaram a cidade na Guerra dos Seis Dias.


O que reivindicam os palestinos?

Os palestinos reivindicam a parte oriental de Jerusalém, de maioria árabe, como a sua capital. Dizem contar com o apoio não apenas dos muçulmanos, como também dos cristãos palestinos, incluindo as principais autoridades cristãs da Terra Santa. Afirmam que por séculos a cidade esteve sob controle islâmico, com muçulmanos, cristãos e judeus vivendo em paz.

Há outras posições?

Tanto israelenses como os palestinos tentam encontrar inconsistências na narrativa do outro. Nos dois lados, também há parcelas mais e menos radicais. Alguns israelenses aceitam a divisão de Jerusalém. Inclusive, no passado, Israel chegou a propor alguma forma de separação da cidade. No lado palestino, são raros os que aceitam Jerusalém unificada e capital de Israel. Existem, porém, grupos que consideram toda a cidade, incluindo a parte ocidental de maioria judaica, como capital dos palestinos.

Como é Jerusalém hoje?

Jerusalém, hoje, é uma municipalidade unificada onde na prática está a capital de Israel. Todos os principais prédios governamentais ficam na parte ocidental da cidade. Foram construídos assentamentos na parte oriental, elevando a população judaica e basicamente separando fisicamente Jerusalém das áreas palestinas na Cisjordânia. Também há a barreira (muro e cerca) entre a cidade e os territórios palestinos, incluindo Ramallah, sede da Autoridade Palestina, e Belém.

O que diz a comunidade internacional?

Há um consenso na comunidade internacional de que o status final de Jerusalém deva ser decidido em negociações entre Israel e Palestina. Por este motivo, as embaixadas dos países em Israel ficam em Tel Aviv e as na Palestina, em Ramallah. O Brasil possui embaixadas nas duas cidades. Donald Trump, ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel e anunciar a mudança da embaixada nos próximos anos rompeu com o status quo, adotando a posição do governo de Israel.

Qual seria a solução?

A crítica ao presidente dos EUA é de que ele devia mediar um acordo entre os dois lados e propor soluções para encerrar o conflito e ser um árbitro independente. No caso de Jerusalém, negociadores experientes já formularam uma série de ideias. Uma delas, por exemplo, praticamente conseguiria agradar a todos os lados. Primeiro, Jerusalém seguiria como uma municipalidade unificada, dividida em diferentes distritos, sendo alguns de maioria árabe e outros, judaica. Esta espécie de “federação” teria um poder central com israelenses e palestinos. A parte antiga da cidade, onde estão a Igreja do Santo Sepulcro, a Mesquita de Al Aqsa e o Muro das Lamentações, poderia manter o status quo atual – a igreja tem uma administração compartilhada entre diferentes denominações cristãs grego-ortodoxa, católica, armênia, copta, siríaca), a Jordânia é guardiã da Esplanada das Mesquitas/Monte do Templo e o Muro tem controle israelense.

A capital de Israel seria na cidade, como já é. Não haveria mudanças. A sede da Presidência palestina poderia ser na parte oriental na Beit al Saqr (Casa do Oriente), um lugar histórico para os palestinos, com o restante da administração na adjacente Ramallah. Os países poderiam ter uma ou duas embaixadas na cidade – o Brasil, por exemplo, cujo embaixador em Israel também é no Chipre, até poderia economizar fechando suas representações em Tel Aviv e Ramallah, tendo apenas uma para os dois países em Jerusalém.