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Guia para entender a intervenção da Rússia na Síria

gustavochacra

01 Outubro 2015 | 12h47

Por que a Rússia decidiu intervir militarmente na Síria neste momento?

A Rússia decidiu intervir neste momento para fortalecer o regime de Bashar al Assad, que vinha sofrendo derrotas ao longo deste ano. Vale notar que a Rússia já armava Assad. A diferença agora é o envolvimento militar direto de Moscou no conflito.

Por que a Rússia apoia Assad?

A Rússia apoia Assad por cinco principais motivos. Primeiro, o regime de Damasco há décadas é um aliado leal de Moscou. Em segundo lugar, a Síria é um cliente para a indústria de armamentos russa. Terceiro, a única base militar da Rússia no Mediterrâneo se localiza em Tartus, uma cidade majoritariamente alauíta e bastião sólido de Assad. Quarto, a Rússia é cristã ortodoxa e os cristãos ortodoxos sírios são protegidos por Assad. Quinto, a Rússia teme o radicalismo islâmico sunita pois grupos radicais operam na Tchetchênia e em outros territórios russos

 Quem são os adversários da Rússia na Síria?

Todos os inimigos de Assad. Isso inclui não apenas o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, mas também outras organizações rebeldes ultra extremistas, como o Jaysh al Fatah, Jaysh al Islam e Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria). Por este motivo, os russos bombardearam alguns alvos ligados a estas organizações rebeldes e não do ISIS

Mas não há também motivações de Putin no âmbito global?

Sim, a Rússia quer fortalecer sua imagem global depois de ver uma deterioração com a anexação da Crimeia e a crise na Ucrânia. Uma vitória sobre o ISIS elevaria a posição russa, especialmente entre os europeus. As sanções contra o país, ligadas à crise na Ucrânia, poderiam ser suspensas. E o peso russo no Oriente Médio voltaria a crescer

Como os EUA veem a intervenção da Rússia?

Os EUA concordam que o ISIS deva ser derrotado, mas são contra apoiar Assad, acusado de cometer crimes contra a humanidade e inimigo declarado dos americanos. A retórica contra o líder sírio continuará. Mas, na prática, o governo americano manterá sua estratégia de bombardear o ISIS na região Raqaa, perto da fronteira com o Iraque, e evitará atritos e acidentes envolvendo os russos em outras áreas. No médio prazo, pressionará Moscou a adotar uma transição em Damasco na qual os americanos aceitariam a permanência do regime, mas com Assad deixando o cargo

Como Irã e o Hezbollah veem a intervenção da Rússia?

Os iranianos e o grupo libanês apoiam Moscou, pois também são aliados de Assad e inimigos dos radicais islâmicos sunitas do ISIS, Frente Nusrah, Jaysh al Islam e Jaysh al Fatah. Mas o regime de Teerã manterá uma certa cautela, pois teme ver seu poder influência sobre Assad diminuir, com Putin exercendo mais força. Isso também pode prejudicar o plano iraniano de, junto com o Hezbollah, montar uma nova frente contra Israel nas Colinas do Golã, além do sul libanês. Assim, poderiam atacar os israelenses sem correr o risco de ver o Líbano ser bombardeado em resposta.

Como os europeus veem a intervenção da Rússia?

Os europeus devem torcer para a Rússia obter sucesso, estabilizando as principais cidades da Síria, ainda que Assad, acusado de cometer crimes contra a humanidade, permaneça no poder. Isso reduziria a pressão sobre os habitantes e talvez reduza a o número de refugiados – todas estas possibilidades são hipóteses

Como os países do Golfo veem a intervenção da Rússia?

Os países do Golfo consideram Assad, o Irã e o Hezbollah inimigos maiores do que o ISIS. E, não podemos esquecer, A Arábia Saudita e seus aliados árabes apoiam abertamente grupos rebeldes ultra radicais como a Frente Nusrah, Jaysh al Fatah e Jaysh al Islam. Mas estes países não irão bater de frente com os russos, com quem mantêm canais de diálogo. Inicialmente, irão apenas observar os acontecimentos antes de tomar uma posição definitiva. Retoricamente, seguirão atacando Assad

Como Israel vê a intervenção da Rússia?

Israel e Rússia mantêm boas relações e Putin se dá bem com Netanyahu. Os israelenses consideram Assad um inimigo, mas o toleram e avaliam ser a melhor opção neste momento. Além disso, os israelenses preferem que os russos ganhem força em detrimento dos iranianos, o que pode aumentar a segurança no Golã

 Como a Turquia vê a intervenção da Rússia?

A Turquia considera os curdos e Assad os seus maiores inimigos no conflito. Mas a pressão dos EUA tem levado o regime de Erdogan a supostamente ser um pouco menos tolerante com o ISIS, especialmente depois de atentados no país. E Erdogan deve evitar bater de frente com Putin, a não ser, talvez, retoricamente

Qual deve ser o resultado da intervenção da Rússia?

O regime de Assad deve se fortalecer, mas será insuficiente para derrotar a oposição e o ISIS. As principais cidades sírias talvez fiquem um pouco mais estáveis. Será algo parecido com a Colômbia dos anos 1980 e 90, com a guerra entre o governo, traficantes e milícias marxistas. No médio prazo, sendo ultra otimista, talvez haja uma transição política, com a inclusão no governo de algumas figuras moderadas da oposição damascena e aleppina que sejam toleradas pelo regime. Na minha opinião, este é apenas mais um capítulo de uma guerra civil que ainda durará muitos anos. No Líbano, foram 15 entre 1975 e 90. Na Síria, só foram quatro até agora. Talvez o pior ainda esteja por vir.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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