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Guia para entender a renúncia do premiê do Líbano

gustavochacra

06 Novembro 2017 | 13h19

O que houve no Líbano?

O Líbano ficará mais instável com a renúncia do premiê Saad Hariri, que provavelmente foi pressionado pelo príncipe, e líder de facto da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman (ou MBS, como é conhecido), a deixar o cargo. A divisão de poder em Beirute sofrerá um enorme desequilíbrio. Basicamente, os libaneses tentaram evitar que o caos regional atingisse o país ao formar no ano passado um governo de união nacional reunindo duas facções adversárias.

Como era a divisão de poder?

De um lado, há uma aliança apoiada pelo Irã de grupos xiitas, como o Hezbollah e a Amal, com grupos cristãos, como a Frente Patriótica Nacional. De outro, uma aliança apoiada pela Arábia Saudita de grupos sunitas, como o Mustaqbal, de Saad Hariri, com outras facções cristãs. Há também partidos independentes cristãos e drusos.


Qual era acordo de união nacional?

Na negociação, chegaram ao consenso de que o Parlamento elegeria Michel Aoun presidente. O “general”, como é conhecido, talvez seja o líder cristão mais popular do Líbano e mantém uma aliança política com o Hezbollah desde que retornou ao Líbano de um exílio de cerca de 15 anos em 2005 (curiosamente, na época, era anti-Hezbollah e anti-Síria). Desta forma, os cristãos ficaram satisfeitos e os xiitas também ao terem Aoun presidente. Em troca, o lado pró-Irã fez uma concessão ao apoiar a eleição de seu rival Saad Hariri, principal líder político sunita do país, pró-Arábia Saudita e com fortes ligações aos EUA, para o posto premiê. Assim, os sunitas ficaram satisfeitos.

E as armas do Hezbollah?

Além disso, Saad Hariri e sua coalizão passaram a tolerar o envolvimento do Hezbollah na Guerra da Síria, onde o grupo luta a favor do regime de Bashar al Assad em aliança com o Irã e a Rússia (obviamente, ter o seu aliado cristão Aoun como presidente não era suficiente para o Hezbollah). O grupo xiita também pôde manter seu “Estado dentro do Estado” no Líbano sem ser importunado. Para completar, as Forças Armadas Libanesas, que são armadas pelos EUA e pela França e comandadas por um cristão, se juntaram ao Hezbollah para defender o território libanês de ataques do ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, e da Frente de Conquista no Levante (antiga Frente Nusrah, a Al Qaeda na Síria).

Por que a Arábia Saudita se irritou?

Este acordo, junto com uma política ortodoxa do Banco Central libanês (também comandado por um cristão) para manter estável a economia, transformou o Líbano em uma ilha de estabilidade. Mas a Arábia Saudita, sob o comando de MBS, vê o Irã como seu maior adversário e passou a não aceitar que Hariri, seu aliado em Beirute, seguisse como membro de um governo do qual o Hezbollah fazia parte – note que Riad não tem problemas com Aoun, o presidente. Na visão saudita, em parte correta, Hariri dava um verniz de legitimidade ao Hezbollah, que é considerado terrorista pela Arábia Saudita, EUA e Israel, entre outros países.

Hariri era ameaçado de ser alvo de atentado?

Ao renunciar, Hariri argumentou que talvez fosse alvo de um atentado do Hezbollah ou do Irã. Não tenho como dizer se estas ameaças são factíveis ou não. Mas não faz muito sentido para o regime de Teerã ou para o Hezbollah matar o premiê, que não os incomodava. Por outro lado, o pai de Saad Hariri, foi morto em atentado terrorista em Beirute em 2005 depois de deixar o cargo de premiê e se tornar líder da oposição.

Por que Hariri renunciou?

Foi estranho. Pegou mesmo seus aliados de surpresa e o anúncio foi feito na Arábia Saudita e um dia no qual MBS determinou as prisões de vários príncipes, incluindo alguns muito poderosos, ministros e ex-ministros. Ainda é cedo para saber se a renúncia de Saad Hariri, que nasceu na Arábia Saudita, onde seu pai fez fortuna, está dentro deste contexto.

Como ficará o Líbano sem premiê?

Com a saída de Hariri, o Líbano basicamente fica sem governo meses antes das eleições parlamentares. Provavelmente, o premiê demissionário segue interinamente no cargo ou Aoun tentará escolher algum nome sunita relativamente respeitado (cargo de primeiro-ministro sempre é destinado aos sunitas, assim como a Presidência aos cristãos maronitas e a Presidência do Parlamento aos xiitas).

Mas o normal do Líbano é ser instável?

Sem dúvida, haverá instabilidade. Mas o normal do Líbano é justamente ser instável. A estabilidade dos últimos anos que é rara. A economia, aparentemente, segue firme (mais do que a do Brasil). Não é do interesse de ninguém internamente uma guerra civil depois do que país passou entre 1975 e 1990 e observa agora na Síria.

Quais os outros problemas libaneses?

Há, no entanto, o problema dos refugiados – há um refugiado sírio para cada quatro libaneses no Líbano. E ainda há os refugiados palestinos. Outra questão envolve o risco de um conflito entre Israel e o Hezbollah. Mas este será tema para outro post.