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Já pensou no Brasil com terrorismo? Seria a Turquia, nosso sósia no Oriente Médio

gustavochacra

10 Outubro 2015 | 21h07

A Turquia é uma espécie de Brasil no Oriente Médio. Em 2009, escrevi

“O premiê turco, Racep Tayyip Erdogan, é uma espécie de Lula da Turquia. Seu partido, o AKP, seria o PT. Os dois líderes superaram obstáculos para chegar ao poder, enfrentaram preconceito das elites e surpreenderam na administração da economia, recebendo elogios internacionais. Ao mesmo tempo, tanto o PT quanto o AKP são acusados de, uma vez no comando, terem se envolvido em corrupção e buscado perpetuação no governo.”

Obviamente, na época, as economias turca e brasileira não haviam entrado em recessão, como agora. Isto é, o cenário piorou para ambas. E as similaridades continuam. Com a diferença, claro, de a Turquia estar na região mais volátil do planeta. Tem fronteira com o Irã, Iraque, Síria, e países que integravam a ex- União Soviética, como a Geórgia, Armênia e Azerbeijão. Possui, portanto, três conflitos ao seu redor – Guerra do Iraque, Guerra da Síria e o conflito de Nagorno Karabakh, entre armênios e azeris. Internamente, a Turquia possui ainda a questão curda, com os curdos lutando por mais direitos.

Até cerca de cinco anos atrás, a Turquia buscava manter boas relações com todos. Era a principal aliada militar de Israel na região; era o principal parceiro econômico de Bashar al Assad; integrante da OTAN; possuía boas relações com os russos; reduzia as restrições aos curdos e aproximação com o Curdistão iraquiano; servia de exemplo de democracia no mundo islâmico; o crescimento da economia causava inveja em países europeus.

Mas tudo mudou. Erdogan deixou de ser aquele premiê democrata admirado pelo mundo. Hoje é presidente e sonha em ter poderes de “sultão” em seu palácio construído em  meio a acusações de super faturamento. Passou a adotar um discurso quase antissemita em relação a Israel e se aproximou do Hamas. Abriu as fronteiras para jihadistas do mundo todo entrarem na Síria para lutar contra o regime de Assad, seu antigo parceiro que o homenageava com outdoors em Damasco. E fez vista grossa (alguns dizem que apoiou) para o armamento de grupos terroristas como a Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria) e o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh.

Neste ano, por pressão dos EUA, aceitou integrar a coalizão internacional para bombardear o ISIS. Mas, no fim, priorizou os bombardeios contra os curdos– curdos que, não podemos esquecer, estão na vanguarda da luta contra o ISIS.

Hoje, em Ancara, capital da Turquia, diante da estação ferroviária e perto do ginásio de basquete, um atentado terrorista matou quase cem pessoas em uma manifestação de um partido curdo e um esquerdista. Não se sabe quem cometeu. Talvez tenha sido o ISIS. E não dá, claro, para responsabilizar Erdogan. Mas será que a Turquia teria chegado a este ponto se ele tivesse mantido a mesma política de até cinco anos atrás, de boas relações com os vizinhos e aproximação com os curdos, em vez de se tornar inimigo de todos?

Enfim, impressionante como a história de Erdogan e do AKP se assemelham à de Lula e do PT. Com a diferença, como disse acima, de que o resultado da política da Turquia tem sido, além do caos econômico e político, como no Brasil, guerra e terrorismo.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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