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Mais um dia trágico para os cristãos coptas no Egito

gustavochacra

26 Maio 2017 | 17h03

Em mais um dia trágico para o cristianismo e a tolerância religiosa mundial, atiradores mataram 26 cristãos coptas, incluindo crianças, próximo à cidade de Minya. As vítimas seguiam para o monastério de São Samuel. Semanas atrás, escrevi um texto que replico agora para explicar a situação dos cristãos no Egito e em outras partes do mundo árabe.

“Em um dia trágico para o cristianismo e a tolerância religiosa mundial, dois mega atentados terroristas contra Igrejas Cristãs Coptas mataram ao menos 36 pessoas no Egito. O ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, reivindicou os ataques. Outros grupos jihadistas têm perseguido e realizado ações violentas contras cristãos no Egito.

Uma das explosões atingiu a Igreja de São George em Tanta e matou 25. Outra teve como alvo a magistral catedral copta de São Marcos em Alexandria, com 11 mortos. Muitos haviam ido à missa para o domingo de ramos.

Os coptas egípcios representam 10% da população do país e seguem uma vertente do cristianismo oriental. São historicamente perseguidos no país, onde, a não ser por uma elite no Cairo e Alexandria, representam camadas mais pobres da população egípcia e sofrem perseguição desde os tempos de Hosni Mubarak, deposto em 2009. Inicialmente, apoiavam o líder egípcio Sissi, mas avaliam que ele é incapaz de proteger os cristãos.

A situação do cristianismo no Egito é dramática e se difere de outros países árabes. No Líbano, os cristãos são poderosos política e economicamente. O presidente do Líbano, Michel Aoun, é cristão, conforme determina o consenso no país. Metade do Parlamento, metade dos ministérios, o chefe das Forças Armadas e o presidente do Banco Central também são cristãos no Líbano (40% da população).

Na Síria, os cristãos (10% da população) são protegidos por Bashar Al Assad, ao mesmo tempo que são perseguidos por rebeldes jihadistas da oposição. Assad é visto como protetor dos cristãos. Em Damasco, há três patriarcados cristãos – o Grego-Ortodoxo Antioquino, o Melquita (Grego-Católico) e o Siríaco-Ortodoxo.

No Iraque, os cristãos eram protegidos por Saddam Hussein. O número dois do ditador iraquiano era o cristão Tariq Aziz. Com a invasão americana, cristãos passaram a ser perseguidos e muitos foram abrigados por Assad na Síria. Os cristãos palestinos estiveram na vanguarda dos movimentos de independência da Palestina até o fim dos anos 1980. Mas muitos emigraram com os anos. Ainda hoje, a prefeita de Ramallah e de Belém são mulheres e cristãs. Arafat, embora muçulmano, era casado com uma cristã. Na Cisjordânia, os cristãos vivem sem problemas, mas o cenário se deteriorou com a chegada do Hamas ao poder em Gaza uma década atrás. Na Jordânia, os cristãos vivem relativamente bem.

Muitos cristãos do mundo árabes acusam os EUA de se aliar a nações extremistas islâmicas, como a Arábia Saudita, e de ser inimigo de líderes que protegem cristãos, como Assad. Veem na Rússia de Putin a grande protetora dos cristãos.

Infelizmente, estas ações não recebem a mesma atenção no Ocidente que o ataque em Estocolmo, com 5 mortos. Por que? Porque somos hipócritas. Tento aqui fazer a minha parte.

Obs. Noto que mencionei os cristãos no mundo árabe, não no islâmico como um todo. E algumas nações árabes, como a Arábia Saudita, basicamente não tem cristãos

Obs2. Tenho origem cristã grego-ortodoxa pelo meu avô paterno e cristã melquita (grego-católica) pela minha avó paterna. Ambos libaneses.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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