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Minha tardia análise da eleição britânica

gustavochacra

14 Junho 2017 | 17h25

Demorei para fazer minha análise das eleições britânicas, admito. Mas hoje segue minha avaliação em números – também mostrarei dados de uma história um pouco diferente da que tem sido propagada. Na verdade, os grandes partidos estão mais fortes entre os eleitores no Reino Unido.

Sim, Theresa May saiu enfraquecida das eleições britânicas. Ninguém discute isso. Possuía maioria no Parlamento e mesmo assim decidiu convocar eleições antecipadas. Sua expectativa era de que ampliaria ainda mais a maioria e teria mais legitimidade para comandar os britânicos nas negociações do Brexit. O problema é que a premiê perdeu a maioria e agora dependerá de uma coalizão com os unionistas irlandeses para poder governar.

Ainda assim, vale apontar alguns dados ignorados por muitos analistas. O Partido Conservador, sob o comando de May, teve mais votos em números absolutos e percentualmente do que David Cameron dois anos antes. Isto é, mais britânicos apoiaram May do que apoiaram Cameron.

Os conservadores, com May, tiveram 42,4% dos votos – 13,6 milhões em números absolutos.


Os conservadores, com Cameron, tiveram 36,9% dos votos – 11,3 milhões em números absolutos.

O problema é que os conservadores com Cameron, apesar de uma votação menor, conquistaram 331 cadeiras. Com May, por sua vez, os conservadores terão 318.

Por que a diferença? Simples, porque a eleição é distrital. O vencedor de cada distrito leva a cadeira, não havendo uma distribuição em acordo com o voto nacional. May teve sua votação concentrada em distritos conservadores, enquanto Cameron teve uma votação mais distribuída. Basicamente, o desempenho de May foi como o de Hillary Clinton. A candidata democrata venceu Trump na votação nacional por causa da imensa diferença em Estados como a Califórnia, perdendo por pouco em swing states, como são chamados os Estados sem predomínio democrata ou republicano.

No caso dos trabalhistas, não há discussão. Jeremy Corbyn foi um avanço eleitoral em relação ao seu antecessor Ed Miliband.

 Os trabalhistas, com Corbyn, obtiveram 12,9 milhões de votos, ou 40,2% do total.

 Os trabalhistas, com Miliband, conquistaram apenas 9,3 milhões de votos, ou 30,4% do total.

 Em número de cadeiras, os trabalhistas subiram de 232 para 262 com Corbyn.

Para completar, estes dados demonstram que, ao contrário do que ocorre na França, os grandes partidos não se enfraqueceram no Reino Unido. Mais de quatro em cada cinco eleitores votaram em um dos dois grandes partidos agora em 2017. O UKIP, alternativa na extrema direita, basicamente se desintegrou.

Os liberais-democratas (um partido com ideias interessantes e próximas das de Macron, na França) teve a mesma performance medíocre de 2015. Caiu de 7,9% para 7,4% dos votos – ou 2,4 milhões para 2,3 milhões. Em total de cadeiras, no entanto, subiu de 8 para 12. Ainda assim, bem aquém das 57 conquistadas em 2010, quando teve 6,8 milhões de votos.

O Partido Nacionalista Escocês também se enfraqueceu.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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