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Nova York – Árabes e não alinhados dão um baile nos EUA na negociação do TNP

gustavochacra

28 Maio 2010 | 20h36

No dia 3 de maio escrevi aqui neste blog e  na edição impressa do Estadão o seguinte.

“Os Estados Unidos podem ser colocados contra a parede na Conferência para a revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) que se inicia nesta semana em Nova York. Os países árabes, aliados à Turquia e ao Irã, devem propor um Oriente Médio livre de armas nucleares, se comprometendo inclusive a assinar um adendo ao pacto internacional ou realizar uma conferência sobre o tema no ano que vem. A iniciativa visa atingir diretamente Israel e forçar os EUA a se posicionarem no Oriente Médio. Na avaliação destes países que, com a exceção do Irã e da Síria, mantêm relações amistosas com Washington, caso os americanos realmente estejam interessados na paz na região, deveriam apoiar o fim das armas nucleares na região, defendendo o desarmamento israelense. Se forem contra, serão acusados de terem dois pesos e duas medidas.”

O que aconteceu? Os 189 signatários acabaram de chegar um acordo reforçando o TNP e pedindo que Israel o assine. Mais do que isso, pretendem deixar as instalações militares israelenses sujeitas a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica. E, em 2012, organizarão uma conferência para transformar o oriente Médio em uma zona livre de armas nucleares. Obviamente, isso implica que Israel se desarme.

Agora, deixando de lado a hipocrisia, vamos a algumas conclusões. Em primeiro lugar, os EUA sabiam desde o início que este poderia ser o resultado, conforme até mesmo este repórter escreveu na época. Impossível a Hillary Clinton e a Susan Rice não saberem. Logo, a atual administração não possui mais tanta força na ONU. Afinal, além de não protegerem os israelenses, os americanos foram incapazes de incluir o Irã no texto, apesar de o regime de Teerã ser acusado diariamente por Washington de violar o TNP.

E vou para a segunda conclusão. Finalmente, os países árabes aprenderam a jogar. Não sejamos ingênuos. Toda esta ação na ONU foi diretamente contra Israel e não por um sonho de vermos o Oriente Médio livre de armas nucleares. O mesmo vale para a resistência pacífica da frota “da paz” agora em Gaza. Eles buscarão mostrar basicamente que Israel é mau (na visão deles). E não necessariamente fazer o bem para os palestinos – certamente, deve haver bem intencionados na operação, mas temos que ver a iniciativa de uma visão mais global.

Para completar, que fique claro, sempre defendi que todos os países ou organizações usem todas as suas ferramentas para atingir seus objetivos através da paz, e não da guerra. A ação dos árabes na ONU foi um baile na administração Obama. O choque com a marinha israelense certamente será mais uma vitória da hasbara árabe.

Na guerra de Gaza, eu já havia mencionado que os árabes finalmente haviam aprendido a fazer propaganda.

“Os árabes – cristãos e muçulmanos – aprenderam a disputar a guerra das relações públicas contra os israelenses e defensores de Israel. A “hasbara” não é mais tão simples como antes. Israel comete muitos erros e os árabes, aos poucos, começam a acertar. A mídia internacional, ao contrário do que dizem, não é controlada por israelenses e tampouco é pró-Israel. Pelo contrário, no atual conflito, Israel perde feio dos árabes na hora de conquistar a opinião pública.”

Por este mesmo motivo, nunca condenei os israelenses por fazerem lobby no Congresso dos EUA. Aliás, se fosse Israel, continuaria agindo para defender o país, mas com uma política menos conservadora – mais J Street, e menos AIPAC. E, se fosse governante árabe, faria o mesmo – e fazem, mas se focando no petróleo, no caso dos países do Golfo, na ajuda militar, no caso da Jordânia e do Egito, e na Síria, no caso dos libaneses.

Também, se eu fosse o governo israelense, manteria as armas atômicas, já que esta é uma forma de dissuadir regimes inimigos . Caso estivesse no poder em Teerã, defenderia armas nucleares para os iranianos. Não para usar contra Tel Aviv, mas para evitar que o país tenha o mesmo destino do Iraque, sendo atacado pelos EUA, posicionados nas suas duas fronteiras. Como sou brasileiro e vivo em Nova York, defendo um Oriente Médio livre de armas nucleares.

Não existe bom e mau nesta região do mundo e nem qualquer outra. Os países e governos apenas defendem os seus interesses.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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