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O diálogo de Abu Michel com Abu Samir

gustavochacra

18 Novembro 2009 | 19h59

Não costumo publicar textos de outras pessoas aqui no blog. Ainda mais de quem não conheço pessoalmente. Mas sou fã do blog libanês Qifa Nabki. Ele escreveu em tom de piada um fictício diálogo entre Michel Aoun e Samir Gaegea – apelidados de Abu Michel e Abu Samir. O texto resume bem o pensamento de líderes árabes e, acima de tudo, do Líbano. Antes, apenas um breve histórico de Michel Aoun e Samir Gaegea.

Aoun (Abu Michel, no diálogo) –
Cristão, subiu ao topo da carreira militar e, na Guerra Civil (1975-90), chegou ao posto de primeiro-ministro. Acabou se exilando em Paris por sua oposição à Síria, que dominou país depois dos acordos de paz. Retornou ao Líbano em 2005 e se aliou aos sírios e ao grupo xiita Hezbollah. É isso mesmo o que vocês leram. Hoje, lidera os cristãos mais moderados do Líbano em coalizão com os xiitas. Aoun (Abu Michel) representa, basicamente, na Guerra Fria do Oriente Médio, o campo sírio-iraniano, por mais maluco que pareça

Gaegea (Abu Samir) –
Líder radical cristão-maronita na Guerra Civil, ex-aliado de Israel, foi preso em meados dos anos 1990, ficando, literalmente, em um calabouço de um governo liderado por Rafik Hariri. Foi solto também em 2005. Fez uma aliança com os sunitas da coalizão 14 de Março e ainda possui a sua milícia armada, conhecida como Forças Libanesas. Assim como no caso do Aoun, ele se aliou aos seus algozes. Na Guerra Fria do Oriente Médio, Gaegea (Abu Samir) está no lado saudita-americano, que inclui os cristãos radicais do Líbano.

Vamos ao diálogo

(Em um café de Beirute)
Abu Michel –
O As-Safir (jornal libanês mais próximo da oposição) diz que a próxima guerra entre Israel e o Líbano será em abril

Abu Samir –
Você ainda lê esta porcaria? O An Nahar (jornal ligado à 14 de Março, de Saad Hariri) afirma que a guerra ocorrerá mais cedo do que isso. Em janeiro ou fevereiro, no máximo

Abu Michel – Impossível. Os israelenses não atacariam no inverno. A campanha nesta época seria um pesadelo para eles. Há muitas nuvens e as condições de vôo seriam difíceis. Seus soldados ficariam desorientados nos nossos vales e montanhas com a neblina.

Abu Samir – Você acha que eles se preocupam com o que vão bombardear desta vez? Eles bombardearão todo o país, indiscriminadamente, com nuvem ou sem. Quando terminarem, mandarão seus soldados mariquinhas (nota minha – sissy, em inglês, e aceito traduções melhores. Na verdade, os cristãos libaneses costumam tirar sarro dos israelenses, chamando-os de franguinhos, cafonas e sem o refinamento dos libaneses. Esta imagem não reflete o pensamento dos muçulmanos, que não gostam dos israelenses, mas os consideram fortes e modernos).

Abu Michel – Eles não arriscariam bombardear todo o país. O Hezbollah atacaria Tel Aviv e Dimona (instalação nuclear israelense)

Abu Samir – Sob as instruções do Irã?

Abu Michel – Engraçado, o que a 14 de Março fará para nos defender da agressão israelense?

Abu Samir
– A Rússia acabou de nos doar dez MIGs 29.

Abu Michel – O que? Você acha que dez ultrapassados caças russos vão deter os israelenses?

Abu Samir – Você acha que alguns katyushas vão?

Silêncio

Abu Michel (sussurrando em tom conspiratório) –
Olha, no fim das contas, as armas da resistência [Hezbollah] são para prevenir o pior cenário possível – a naturalização dos palestinos.

Abu Samir – Claro. Para que você acha que são os MIGs?

Abu Michel – Claro, claro.

Abu Samir –
Passe o açúcar, por favor.

Nota – Aoun e Gaegea já travaram uma guerra entre si, no fim dos anos 1980. Foi a batalha dos cristãos, onde irmão lutava contra irmão. Os dois perderam e os cristãos são hoje coadjuvantes de xiitas e sunitas no Líbano. Tampouco possuem um líder forte, como os druzos