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O Irã e a Arábia Saudita estão em guerra no Yemen?

gustavochacra

26 Março 2015 | 12h10

Há uma guerra do Irã contra a Arábia Saudita no Yemen?

O Yemen pode se tornar palco da primeira guerra aberta entre a Arábia Saudita, que é árabe e muçulmana sunita, e o Irã, que é persa e xiita. Na Síria e no Iraque, os dois países apoiam lados rivais, mas ambos neste momento tem o foco na luta contra um rival comum, o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh.

Como é a intervenção saudita?

Na noite de ontem, a Arábia Saudita iniciou uma ofensiva aérea, que pode ser ampliada por terra, contra os houthis, que tem o controle da capital Sanaa e de outras Províncias do país e estavam próximos de conquistar a cidade portuária de Aden, antiga capital do Yemen do Sul e segunda mais importante metrópole do país. Tudo com o apoio de seu antigo algoz, o ex-ditador Abdullah Saleh.

Onde está o presidente Hadi?

O presidente Abd Rabu Mansur Hadi, aliado da Arábia Saudita, foi deposto do poder em Sanaa. Chegou a renunciar, mas depois voltou atrás e passou a tentar governar a partir de Aden. Ontem, teria fugido para Omã.

O Irã apoia os houthis?

Os houthis são apoiados pelo Irã. Eles seguem uma vertente do islamismo xiita conhecido como zaidismo. Por anos, lutaram contra o regime de Saleh, mas se aliaram a ele nos últimos meses para enfrentar o governo de Hadi e também a rede terrorista Al Qaeda na Península Arábica.

Mas a relação Irã-Houthis é como Irã-Hezbollah?

A relação dos houthis com o Irã é de aliança, mas não se trata de um grupo como o Hezbollah para o regime de Teerã. Não foram criados com o apoio iraniano e tem uma força nativa, sem agenda externa, como o grupo libanês. Dentro do Yemen, possui certo apoio mesmo de árabes sunitas que os veem como fator de estabilização.

 Quem apoia Hadi?

Hadi, que tem legitimidade no exterior, tem o apoio dos sauditas e dos EUA. No país, parte de sua base é árabe sunita. Mas estava extremamente enfraquecido. Seu governo, em comum com os houthis, também luta contra a Al Qaeda na Península Arábica.

Com a intervenção da Arábia Saudita, pode haver reação do Irã?

Os  bombardeios sauditas, com o apoio de dez países do mundo islâmico sunita, contra os houthis, podem levar a uma reação militar do Irã. Por enquanto, o regime de Teerã está apenas na retórica. O país tem como prioridade, neste momento, assinar um acordo envolvendo a sua questão nuclear com os EUA, e também defender o regime de Bashar al Assad na Síria e o governo de Bagdá na luta de ambos contra o ISIS.

Por que os EUA não se aliam aos houthis contra a Al Qaeda?

Apesar de os houthis combaterem a Al Qaeda, os EUA não querem manter sua estratégia de usar Drones para bombardear alvos da rede terrorista no Yemen. Os americanos, que apoiam a intervenção saudita, dizem que os bombardeios e a coordenação seriam retomados caso Hadi seja reinstalado no poder. Este vácuo pode ajudar no fortalecimento dos terroristas da Al Qaeda. O ISIS também diz ter um braço no país que reivindicou atentado terrorista contra mesquitas frequentadas por houthis.

E os separatistas do sul?

Além das forças de Hadi, das forças de Saleh, dos houthis e da Al Qaeda na Península Arábica, também há a presença de separatistas no sul. Esta região do país foi independente até 1994 e teve um regime comunista aliado dos soviéticos.

Como é o Yemen?

O Yemen é uma nação conservadora, além de ser o país mais pobre do mundo árabe. Tem uma das populações mais armadas do mundo e a maioria de seus habitantes, incluindo mulheres e muitos adolescentes, é viciada em uma droga conhecida como qat e a consomem diariamente. Foi o país mais diferente e um dos mais mágicos que conheci.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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