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O que é um “Brazilian-American”?

gustavochacra

12 Maio 2017 | 10h56

Participei de um debate ontem no qual um dos analistas americanos disse que os brasileiros residentes nos EUA deveriam se mobilizar mais politicamente para defender seus interesses. Em seguida, disse que os EUA são uma nação de imigrantes e é difícil explicar isso para os brasileiros.

Eu, que também participava do debate, tive de interceder neste momento e explicar para o analista que o atual presidente do Brasil tem cidadania libanesa e seus pais nasceram no Líbano. Que sua antecessora é filha de búlgaro e foi eleita em 2010 ao derrotar um filho de italianos. Que o Brasil recebeu mais imigrantes japoneses, libaneses e sírios do que qualquer outra nação do mundo. Que São Paulo tem mais descendentes de italiano do que Nova York. Que São Paulo possui uma proeminente comunidade judaica. Ainda acrescentei um “My God, have you ever been to São Paulo”? A diferença é que no Brasil não ficamos com a chatice de “Italian-American” e sim falamos que somos brasileiros “netos” ou “descentes” de italianos. Fica a receita para os americanos.

Em seguida, ainda questionei o motivo de os brasileiros terem de se organizar eleitoralmente nos EUA e qual seria a agenda comum dos brasileiros. Este é um dos problemas do Partido Democrata americano, ao insistir na questão de “política de identidades”. Brasileiros, disse para ele, podem ter agendas conservadoras ou liberais (progressistas, no sentido americano da palavra). Alguns podem estar mais preocupados com menos impostos. Outros, com a reforma do sistema de saúde. Não há homogeneidade.

É urgente que os americanos, em especial o Partido Democrata, entendam que não há uma etnia ou civilização latino-americana. Não tem como generalizar. Um professor argentino esquerdista filho de alemães  se sente branco e não defenderá as mesmas bandeiras que um advogado gualtemateco descendente de indígenas e evangélico que é contra o casamento gay e o direito ao aborto. Basta ver que os dois maiores políticos hispânicos dos EUA são republicanos – Ted Cruz e Marco Rubio. Note que não sou fã deles, mas não entendo como os democratas não abram os olhos para entender isso. Hispânicos votam mais nos democratas, mas muitos votaram em Trump apesar do discurso anti-imigrantes.


E não me venham dizer que a língua é a mesma. Não é. No Brasil, falamos português. E, se língua for a questão, por que espanhóis não são considerados hispânicos nos EUA?

O analista me respondeu que, se eu for para Kentucky, dirão que eu sou “Brazilian-American”. Não estou preocupado com o que vão achar de mim. Mas respondi que não sou “American” e sim um brasileiro que trabalha nos EUA descendente de libaneses, italianos e portugueses, casado com uma brasileira com as mesmas origens, além da cidadania italiana, e uma filha americana. Sabe-se lá como ele quer me classificar. Apenas acrescente que sou palmeirense e está tudo certo (tudo menos são-paulino!). Quando preciso preencher aqueles questionários bizarros nos EUA, não tenho como colocar hispânico, embora goste de passar por argentino ou colombiano. Branco dizem que não sou, graças ao meu bronzeado e o fato de ter nascido ao sul do Rio Grande. Coloco “other” ou “Middle Eastern” – aliás, israelenses de origem judaica do Leste Europeu e sauditas são ambos “Middle Eastern”. Se puder escrever, mando ver um “mediterranean” de farra. Lembrei agora que um amigo meu carioca de origem judaica residente em Greenwich (Connecticut) falava para os filhos dizerem na escola que eram flamenguistas-american.

Meu pai, filho de libaneses, é 100% brasileiro. Ninguém, a não ser eu talvez, fica batendo na tecla que o Michel Temer é “árabe-brasileiro”. Nos EUA, seria a primeira qualificação dele. Muito menos que a Dilma é búlgara-brasileira. Temos de ter orgulho das nossas origens, mas isso não implica que teremos determinada ideologia política pelo simples fato de sermos de lugares diferentes ou do mesmo lugar. Uma das maiores críticas feita a Temer foi do escrito Raduan Nassar, um brasileiro que, como o presidente, é filho de libaneses.

Antes que me esqueça, claro que “Brazilian-Americans” tem suas particularidades. Gostamos de brigadeiro, pão de queijo, futebol, novela, carnaval e sei lá o que mais. Também gostamos de quibe, esfiha, macarrão e sushi. Isso, insisto, não significa que devam todos votar da mesma forma ou ter a mesma agenda nos EUA. A não ser, claro, caso queiram proibir a venda da camisa do Flamengo em Astoria, no Queens. Mesmo neste caso, apenas uma parcela ficará revoltada. Os vascaínos irão celebrar.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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