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Ocidente quer quebrar BRICS através de aliança com o Brasil

gustavochacra

27 novembro 2011 | 10:35

 no twitter @gugachacra

Os Estados Unidos e seus aliados europeus pretendem acabar com a atual divisão das Nações Unidas entre o Ocidente e os BRICS, como é denominado o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Neste ano, os dois lados se dividiram em questões envolvendo Síria, Líbia, Palestina e Irã.

Para conseguir o rompimento do grupo dos emergentes, americanos e europeus tentam convencer brasileiros, indianos e sul-africanos a adotarem posições mais próximas das de Washington e das capitais européias em relação ao Irã e à Síria, mas não necessariamente na Palestina – a Líbia perdeu importância depois da queda de Muamar Kadafi.

De acordo com diplomatas ocidentais consultados com quem conversei, os BRICS podem fazer sentido na economia, mas não necessariamente na política externa.  “O Brasil deveria manter a sua postura de valorizar sempre a questão dos direitos humanos e não há motivos para bloquear iniciativas contra os regimes que as desrespeitam”, disse um deles, se referindo à Síria e ao Irã.

Analistas discordam e dizem que o princípio da não-intervenção une os BRICS e esta política se acentuou depois do episódio da Líbia neste ano. Segundo os governos dos países emergentes, a resolução que estabeleceu uma zona de exclusão aérea serviu de desculpa para uma operação de mudança de regime. Com o sucesso da OTAN no norte da África, estas nações dizem temer que o mesmo se repita na Síria ou no Irã. Até esta semana, antes de emergir a idéia do corredor humanitário sírio, proposto pela França, as potências ocidentais insistiam que este argumento não fazia sentido porque a resolução proposta em outubro não falava em intervenção.

Segundo Leonardo Weller, da consultoria de risco político britânica Exclusive Analysis, historicamente, o Brasil “adota uma posição não intervencionista porque teme que isso possa ser usado no futuro em questões envolvendo a Amazônia e temas nucleares. O episódio do (embaixador José Maurício) Bustani influenciou muito as posições brasileiras em política externa”. O diplomata brasileiro teve o seu mandato cortado na Organização para a Proibição de Armas Químicas em 2002 depois de intervenção dos EUA.

Também existe à oposição brasileira ao Protocolo Adicional do Tratado de Não Proliferação Nuclear. As potência ocidentais insistem que o Irã, e mesmo o Brasil, deveriam ser signatários. Porém, mesmo levando em conta esta cautela, na avaliação de Weller, “talvez tenha havido exagero nos posicionamentos do Brasil” dentro da ONU.

Já a China e a Rússia se movem por interesses econômicos e geopolíticos na região e a “não intervenção” favorece esta política. O Irã é o terceiro maior exportador de petróleo para Pequim e as vendas cresceram 50% no primeiro semestre deste ano. Moscou mantém um entreposto militar na costa da Síria há décadas. Sanções contra o regime de Teerã ou o de Damasco trariam prejuízos para estes dois países. Mas o mesmo não se aplica ao Brasil.

Desta forma, na questão síria, os EUA e os europeus tentam convencer o Brasil a adotar uma posição mais dura. Segundo um diplomata ocidental, ocorreram avanços que podem demonstrar uma mudança de postura brasileira, como a votação a favor de uma resolução condenando a Síria na Assembleia Geral por violação dos direitos humanos. “Esperamos que este novo posicionamento seja confirmado caso a obstinação da Síria em ignorar os apelos da comunidade internacional exija mais ações na ONU”, afirmou o diplomata, indicando uma possível segunda tentativa de sanções contra a Síria no Conselho de Segurança.

Para Ayham Kamel, da consultoria de risco política Eurasia, “os países do BRIC mantêm uma posição de pedir um acordo negociado entre a oposição e o regime, mas eles estão menos a favor de Assad do que antes e podem reavaliar suas posições se a violência continuar”. Porém, em comunicado publicado nesta quinta em Moscou, o bloco dos emergentes voltou a dizer que é contra “uma intervenção externa” sem o aval da ONU.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios