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Oriente Médio era mais importante para a Grécia Antiga do que o Ocidente?

gustavochacra

20 Fevereiro 2017 | 14h06

A Grécia Antiga era muito mais ligada ao Mediterrâneo Oriental do que ao Mediterrâneo Ocidental. Aliás, o Mediterrâneo Ocidental teve pouco impacto nas civilizações do passado.

Para os gregos, o mundo para o Oriente era bem mais interessante. Inclusive, seus maiores inimigos estavam para o leste, como os persas. A história da humanidade também vinha do Oriente, com os assírios, os fenícios, os judeus e os egípcios. Para o oeste, estavam os bárbaros.

O mundo helênico foi difundido por Alexandre, o Grande, em direção ao Oriente, não para o Ocidente. Não existia interesse no que estava para o outro lado do Mediterrâneo e muito menos para o norte. A direção do mundo era para o sul e para o leste. O mesmo vale para cidades-estados como Veneza.

As influências do mundo helênico no Oriente não terminaram com o advento do Império Romano. Ao contrário, prosseguiram por séculos com o Império Bizantino. No Brasil e nos EUA, nas escolas, se ensina o Cisma do Oriente e a Queda de Constantinopla, mas pouco se fala deste mundo greco-romano dos bizantinos existente no Oriente por séculos enquanto a Europa ocidental seguia atrasada na era medieval.

Muitos no Brasil não têm ideia do que seja o cristianismo grego-ortodoxo e tampouco sabem da existência de um patriarca ecumênico de Constantinopla (Istambul). E não sabem que esta civilização greco-romana influenciou o que hoje é o mundo árabe. Basta ver as ruínas de Baalbeck no Líbano para se ter uma ideia. Ou, claro, o nome da segunda maior cidade do Egito – Alexandria.

Existe uma ideia completamente equivocada de que nações como o Líbano e a Síria tenham apenas sofrido influência árabe. Não, de jeito nenhum. Até hoje estas nações possuem influência grega, assíria e armênia, embora não a latina.

Com raras exceções como entre alguns cristãos palestinos, os cristãos do mundo árabe não são católicos romanos (chamados de latinos, no mundo árabe), embora algumas denominações cristãs estejam em comunhão com o Vaticano. As maiores influências vêm justamente de civilizações antigas. Os cristãos maronitas, os cristãos caldeus e os cristãos siríacos possuem influência assíria. Os cristãos armênios, dos armênios, obviamente. Os cristãos grego-ortodoxos e grego-católicos (melquitas), dos gregos. E os cristãos coptas, dos egípcios.

E estas civilizações influenciaram também os muçulmanos sunitas e xiitas – no caso destes, a influência persa é ainda maior. Mas note que os muçulmanos viveram por séculos em meio a cristãos e judeus nesta parte do Mediterrâneo Oriental. Não é novidade para eles. Um parisiense cristão no século 18 talvez nunca tivesse visto um muçulmano. Mas certamente um alepino ou damasceno muçulmano tinha amigos alepinos cristãos e judeus na mesma época.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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