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Perguntas e respostas para entender o atentado no Yemen

gustavochacra

20 Março 2015 | 16h06

Venho alertando há muito tempo para a crise no Yemen. Hoje ocorreu mais um mega atentado terrorista no país, matando mais de cem pessoas em mesquitas frequentadas pelo seguidores do islamismo Zyad, um braço dos xiitas e religião da etnia Houthi, que domina o país. São engenheiros, padeiros, professores, advogadas, médicas, maridos, mulheres, crianças e avós que foram destroçados no maior atentado deste ano.

Para entender o contexto, coloco aqui uma série de perguntas e respostas (algumas delas foram usadas em outros posts)

 Quem cometeu o atentado?

O ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico, reivindicou a ação. Seria a primeira do grupo no território iemenina. Mas o Yemen, nos últimos anos, tem sido alvo de dezenas de ataques terroristas cometidos pela Al Qaeda na Península Arábica. Não dá para descartar que a rede fundada por Bin Laden, e não o ISIS, tenha sido a responsável. Na verdade, eu acho que foi a Al Qaeda e o ISIS está fazendo propaganda. Os EUA tampouco confirmam ter sido o ISIS.

Como é o Yemen?

O Yemen é o país mais pobre do mundo árabe. Também possui uma população extremamente conservadora. Cerca de 90% dos adultos são viciados em uma droga chamada qat. Eles a mascam todos os dias em um ritual. Ao todo, há 26 milhões de habitantes. Quase todos são muçulmanos, sendo 65% sunita e cerca de 35% zyadi (considerado por alguns como um braço dos xiitas e adotado como religião pela etnia houthi). No passado, havia uma proeminente população judaica, mas os judeus, quase na sua totalidade, foram levados para Israel na Operação Tapete Mágico.

E  a geografia do país?

O Yemen está ao sul da Arábia Saudita e ao oeste de Omã, no Península Arábica. Possui costa tanto no Mar Vermelho, que o separa do Chifre Africano, como no Oceano Índico. Historicamente, como mostrarei abaixo, o norte fica ao redor de Sanaa, a capital. E o sul, ao redor da cidade portuária de Aden

Qual a história recente do Yemen?

O Yemen ficou independente do Império Otomano depois da Primeira Guerra, mas passou a ser um protetorado dos britânicos, que controlavam o estratégico porto de Aden. Em 1967, o país ficou independente. Mas o sul, três anos mais tarde, fez um revolução comunista. Aliás, o único lugar do mundo árabe onde houve comunismo foi o Yemen do Sul. Sob o comando de Abdullah Salleh, governante do Yemen do Norte, capitalista, as duas regiões se unificaram depois de anos de guerra em 1994. Salleh acabou deixando o poder em 2011, durante a Primavera Árabe

Como está a política do país?

Os Houthis depuseram o presidente Abd Rabuh Mansur Hadi, eleito democraticamente, no começo deste ano e dominaram Sanaa, a capital do país. O líder iemenita fugiu para o sul, onde estabeleceu uma capital provisória na cidade portuária de Aden, antiga capital do Yemen socialista. Nos últimos dias, suas forças começaram a travar batalhas com tropas leais ao ex-presidente Saleh

Quem são os Houthis?

Os houthis são uma etnia que segue um braço do islamismo xiita conhecido como ziadismo, em uma tradução livre para o português. Eles governaram o norte do Yemen por mais de mil anos até 1962, embora tenham sido dominados uma série de vezes. Representam um terço da população iemenita. Os outros dois terços são árabes majoritariamente sunitas. Saleh, curiosamente, segue o ziadismo, embora não seja religioso e jamais tenha integrado o movimento houthi – como disse anteriormente, admirava o arabismo.

Quais são os outros principais grupos, além dos houthis?

Presidente Hadi e suas forças – enfraquecido internamente, possui pouco poder de fato. Mas desfruta de legitimidade, especialmente no exterior. É aliado dos EUA na Guerra ao Terror

 Ex-Presidente Abdullah Saleh – embora não mais no comando do país, possui enorme influência nas Forças Armadas e na política iemenita. Também tem seus canais de contatos no exterior, incluindo nos EUA, mas não tem legitimidade

 Al Qaeda na Península Arábica – Atuante em algumas zonas tribais, age mais como grupo terrorista internamente. Não tem apoio popular, mas é uma organização com braços espalhados pelo mundo, como vimos na França

 Separatistas do Sul – Querem que o sul do Yemen volte a ser independente como antes de 1994, com capital no porto de Aden. Mas não defendem o retorno ao comunismo na época

ISIS – Seria um fenômeno novo, inexistente anteriormente

Quem é adversário e aliado de quem internamente?

Os Houthis são inimigos de todos. Hadi é inimigo de todos. Os separatistas são inimigos de todos. Saleh é inimigos de todos. A Al Qaeda na Península Arábica é inimiga de todos, obviamente. O ISIS também seria inimigo de todos. Há coordenações ocasionais entre estes grupos.

 Quem são os aliados externos

Houthis – São aliados do Irã, mas não são necessariamente inimigos dos EUA. Há muitos interesses comuns com Washington

 Hadi – Aliado dos EUA e dos países do Golfo, como Arábia Saudita e Omã

 Saleh – Embora não oficialmente, tem aliados nos EUA e no Golfo (Arábia Saudita e Omã)

 Al Qaeda – Ninguém, a não ser o próprio grupo no exterior

 Separatistas – Alguns serviços de inteligência no Golfo

ISIS – Da base do grupo na Síria e no Iraque

 Os Houthis lutam contra a Al Qaeda?

Esta é a pergunta que talvez interesse no momento e a resposta é sim. Os houthis são inimigos da Al Qaeda. Afinal, seguem um braço do islamismo xiita e são aliados do Irã. A Al Qaeda segue uma vertente distorcida e ultra radical do islamismo sunita. Naturalmente, são inimigos mortais. Noto, porém, que os houthis agem como guerrilha. A Al Qaeda, como grupo terrorista. Os houthis possuem agenda local. A Al Qaeda, global.

Os Houthis lutam contra o ISIS?

O ISIS é um ator novo no Yemen, mas certamente sera inimigo do ISIS, já que ambos seguem versões distintas e rivais do islamismo

E os Estados Unidos?

Até o começo do ano, os EUA mantinha a política de ataques de Drones contra alvos da Al Qaeda na Península Arábica em parceria com governo do Yemen. As operações vinham obtendo resultados em eliminar líderes da rede terrorista. Mas algumas ações acabaram provocando vítimas civis, alimentando o apoio à Al Qaeda e o sentimento anti-EUA. Desde a tomada de Sanaa pelos houthis, os EUA suspenderam as operações, embora os houthis também tenham interesse em combater a Al Qaeda. Os Americanos também retiraram a maior parte dos diplomatas do país

Qual o risco deste colapso do Yemen?

O colapso do Yemen pode ter uma série de repercussões. Primeiro, os houthis são patrocinados pelo Irã. A tomada do poder por este grupo deve enfurecer a Arábia Saudita, acirrando a sua Guerra Fria contra o Irã, com os dois países em lados antagônicos no Líbano, Síria, Iraque e Bahrain. A Al Qaeda na Península Arábica pode ampliar seu poder nas zonas tribais, buscando repetir o que seus inimigos do ISIS, também conhecidos como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, fazem em partes da Síria e do Iraque. Os EUA podem perder algumas das suas principais ferramentas na Guerra ao Terror. Desta base, podem intensificar seus ataques terroristas. Por último, agora surge o ISIS como novo ator.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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