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Por que a intervenção dos EUA no Afeganistão é um fracasso total?

gustavochacra

22 Abril 2017 | 09h53

Cem militares foram mortos em um ataque terrorista do Taleban contra um complexo do Exército afegão no norte do Afeganistão.

. O ataque terrorista ocorre depois de os EUA terem armado, nos anos 1980, jihadistas para lutarem contra a União Soviética. Entre estes jihadistas, conhecidos como mujahedin, havia figuras como Osama Bin Laden. Eles também recebiam dinheiro da Arábia Saudita.

. O ataque ocorre depois de estes johadistas terem se transformado no Taleban e tomado o poder no Afeganistão, impondo um regime ultra extremista reconhecido por poucas nações, incluindo a Arábia Saudita.

. O ataque ocorre depois de os jihadistas estrangeiros se tornarem a rede terrorista Al Qaeda e romperem com os EUA e a Arábia Saudita.


. O ataque ocorre depois de a Al Qaeda buscar abrigo no Afeganistão e realizar os atentados terroristas do 11 de Setembro.

. O ataque ocorre depois de os EUA, em resposta ao 11 de Setembro, lançarem uma mega invasão com dezenas de milhares de soldados para derrubar o regime do Taleban.

. O ataque ocorre depois de mais de 15 anos de ocupação americana do Afeganistão, na maior guerra da história dos EUA.

. O ataque ocorre depois de o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, se expandir para o Afeganistão.

. O ataque ocorre depois de os EUA terem gasto trilhões de dólares nesta ocupação.

. O ataque ocorre depois de os EUA terem lançado a sua mais poderosa bomba não nuclear contra um suposto esconderijo do ISIS perto da fronteira com o Paquistão há uma semana.

E ainda tem gente que defende “intervenções americanas” em nações do Oriente Médio e da Ásia Central mesmo com mais de três décadas de fiasco no Afeganistão, sem falar do Iraque e da Líbia (e coloque também no pacote o fracassado envio dos marines para o Líbano).

Curiosamente, teve uma guerra civil na Argélia nos anos 1990, na qual morreram centenas de milhares de pessoas. O conflito terminou sem a necessidade de intervenção dos EUA. Aliás, muita gente nem sabe desta guerra – não confundir com a Guerra de Independência da Argélia. Como estaria o Afeganistão sem as intervenções soviética, americana e saudita? Melhor. Pena que a Arábia Saudita difundiu o radicalismo wahabbita para aquele país que era sim muito mais moderado e pacífico até os anos 1970.

Donald Trump e Barack Obama até tinham o mérito de, comparados a George W. Bush, entenderem dos riscos de se envolver nos conflitos do Oriente Médio. Esta era inclusive a principal qualidade da candidatura Trump, na qual o atual presidente claramente tinha uma visão melhor do que a sua rival intervencionista Hillary Clinton. Infelizmente, Trump sem perceber começa a ser sugado pelo “establishment” intervencionista de Washington representado na política tanto por republicanos, como John McCain, como por democratas, como Hillary. Estes políticos e a indústria militar precisam de guerras e de intervenções militares para se sustentarem. E convencem uma opinião pública inocente de que estas intervenções são melhores. A Guerra da Síria já teria acabado como a da Argélia não fossem as intervenções externas. Obama tentou ser diferente. Não deixaram. O mesmo ocorre agora com Trump. Talvez ocorresse também com Bernie Sanders.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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