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Por que cresceu o sentimento anti-cristão no Egito?

gustavochacra

27 Fevereiro 2017 | 12h47

Como está a situação dos cristãos no Oriente Médio?

Não dá para generalizar a situação dos cristãos em todo o Oriente Médio. No Líbano, os cristãos, que são cerca de 40% da população e integram a classe média e elite do país, estão bem, sem sofrerem perseguição, e mantêm os cargos de presidente da República e de chefe das Forças Armadas, além de metade do Parlamento e do Ministério garantidos por consenso. Já no Egito, ocorre o oposto. Cristãos, que representam 10% da população e compõem a camada mais pobre, são perseguidos e marginalizados na sociedade.

Quais os recentes ataques a cristãos?

Tem havido uma série de ataques contra cristãos e um incremento da perseguição a eles em áreas como o Sinai. Este não é um fenômeno novo, mas se intensificou a partir dos últimos anos de Hosni Mubarak, deposto em 2011. O cenário piorou nos anos da administração da Irmandade Muçulmana e não melhorou com a chegada de Sissi ao poder, apesar de ele ter recebido inicialmente apoio de lideranças religiosas cristãs.

Por que aumentou o sentimento anti-cristão?

Há vários fatores para este fenômeno. Primeiro, um crescimento do sentimento anti-cristão em alguns setores da sociedade egípcia que se intensificou com o advento das redes sociais e a proliferação de Fake News. Pesa também uma certa pulverização de lideranças religiosas, com o fortalecimento de um discurso salafista ultra radical do islamismo.

Antes havia menos radicalismo no Egito?

Este novo radicalismo islâmico no Egito se difere do secularismo preponderante nos anos de Nasser, Sadat e mesmo Mubarak. Nos anos 1970, raras eram as mulheres muçulmanas de classe média que usavam véu no Cairo. Hoje, quase a totalidade usa. Mais grave, o pensamento islâmico tinha dois focos importantes – a Universidade Al Azhar no Cairo e a Irmandade Muçulmana. A primeira, embora ainda respeitada, perdeu um pouco da força. Já a Irmandade, que nos anos Mubarak era tolerada na clandestinidade depois de abdicar do terrorismo décadas antes, passou a ser perseguida como terrorista por Sissi. Lideranças moderadas do grupo que repudiavam o terrorismo há anos foram presas e mortas.

E o ISIS?

Isso abriu espaço para o radicalismo exacerbado difundido pelos salafistas, pois não encontraram mais barreiras entre os mais religiosos. Além disso, em áreas com pouca presença do Estado, como o Sinai, grupos radicais já existentes (lembrem da série de atentados na década passada na região) declararam lealdade ao ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, e passaram a atacar os cristãos.

Sissi faz algo para proteger os cristãos?

Sissi, embora respeitado no Ocidente, tem sido extremamente incompetente na área econômica e no governo em geral. Suas garantias de que protegeria os cristãos não foram cumpridas. Infelizmente, muitos nos EUA e em Israel o enxergam como aliado. É irônico, mas o regime de Bashar al Assad protege os cristãos e têm o apoio da maioria deles na Síria.

Por que os cristãos do Egito estão piores do que no Líbano?

O Egito é um dos raros países árabes onde os cristãos não fazem parte da elite ou classe média, se diferenciando de nações como a Síria (nas áreas controladas por Assad e pelos curdos, mas são perseguidos em regiões nas mãos da oposição), Jordânia, Líbano e mesmo o Iraque até a queda de Saddam. Vale lembrar que a maioria dos cristãos egípcios é copta – no Líbano, é maronita; na Síria, grego-ortodoxa; no Iraque, caldeia.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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