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Por que devemos visitar a vila dos nossos avós no Líbano, Itália, Japão ou Ceará?

gustavochacra

06 junho 2014 | 16:13

Sou descendente de libaneses pelo meu lado paterno. Pelo materno, metade italiano e metade família brasileira de origem portuguesa. Como eu, dezenas de milhões de pessoas no Brasil possuem suas raízes em outras partes do mundo. Portugal, África, Itália, Líbano, Japão, Síria, Alemanha e Polônia são os mais comuns, embora longe de serem os únicos.

Nesta sexta, visitei pela décima vez a vila de Rachaya, onde nasceram meus avós, aos pés do Monte Hermon na divisa do Vale do Beqaa com o sul libanês, quase na tríplice fronteira entre Israel-Síria-Líbano. É uma cidade com arquitetura tradicional libanesa. Suas casas são de pedra e telhados vermelhos. O parente mais próximo ainda residente é um primo do meu pai chamado Nabil Chacra, um médico que estudou medicina na Bulgária e hoje vive na rua principal da cidade.

Rachaya, no passado, era uma cidade majoritariamente cristã-ortodoxa, com minorias drusa e cristã grego-católica (melquita). Meu avô era cristão ortodoxo. Minha avó, de família grego-católica. Hoje, com a imigração para a América de um século atrás, Rachaya se tornou uma vila quase totalmente drusa, com alguns poucos cristãos ortodoxos. Perdeu importância por dois motivos – a delimitação de fronteiras feita pela França e Grã Bretanha, eliminando a ligação entre Damasco e Haifa, e, posteriormente, a ocupação do sul do Líbano por Israel, deixando Rachaya como uma das últimas cidades sob soberania libanesa.

Mas não foi apenas Rachaya que visitei. Cerca de dez anos atrás, também estive em Piombino Dese, um vilarejo no Veneto, onde conheci primos distantes da minha mãe, da família Cerello.

Na minha opinião, como eu, todas as pessoas que tiverem condições deveriam um dia conhecer a vila de onde vieram seus antepassados. Ajuda a nos entender.  Mesmo se for no Brasil, no Ceará ou em Santa Catarina, também vá ao lugar onde nasceram seus avós. Recentemente, o publicitário Roberto Duailibi, fundador da DPZ, esteve na Zahle de seu pai para mostrar a seus filhos o legendário rio Bardauni. Em alguns casos, como o do meu amigo Ricardo Betti ou de Anthony Shadid, correspondente do New York Times em Beirute que faleceu há dois anos na Síria, vale até mesmo morar um tempo nestes lugares – nos casos acima, Lucca e Marjayoun respectivamente.

Ao visitar a vila onde nossos avós ou bisavós nasceram e cresceram, entendemos o que eles tiveram de passar para que estejamos aqui e tenhamos construído o Brasil. Sempre questionei os motivos de, a não ser por São Paulo e partes do sul, não valorizarem tanto os imigrantes na identidade brasileira. Seria como se o Brasil fosse apenas uma mistura de portugueses, africanos e indígenas. Isso vem do passado e se reforçou em alguns traços da nossa cultura popular – verdade seja dita, mais pela música com o tropicalismo do que pela literatura, onde Jorge Amado e Milton Hatoun, entre outros, valorizaram pessoas de outras origens.

Sem dúvida, portugueses, africanos e indígenas foram cruciais na nossa formação cultural. Mas deveríamos valorizar também nossas origens italianas, libanesas, japonesas, judias (da Europa e do mundo árabe), alemãs e sírias. Há um pouco de Okinawa, Odessa, Zahle, Lucca e tantas cidades e vilas ao redor do mundo de onde, ao longo dos últimos 150 anos, nossos pais, avós e bisavós vieram.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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