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Por que é bobagem dizer que a Guerra da Síria será a Terceira Guerra Mundial?

gustavochacra

07 Outubro 2015 | 12h15

Tenho lido em alguns lugares sobre o risco de haver uma Terceira Guerra Mundial por causa da intervenção da Rússia na Síria. Bobagem. Não vou entrar na questão da intervenção, que já discuti em outros posts. Mas não há a menor possibilidade de o conflito sírio se transformar em uma terceira guerra mundial neste momento.

Sim, os aviões de Putin invadiram o espaço aéreo da Turquia. Mas não atacaram e não irão atacar a Turquia – se houvesse um ataque, seria um ataque contra um membro da OTAN (Turquia) e consequentemente contra todos os outros países integrantes da aliança militar, incluindo os EUA. Mas, insisto, a Rússia não atacou e não atacará os turcos.

Em segundo lugar, a Rússia possui boas relações bilaterais com a Turquia. O presidente turco Recep Tayyp Erdogan esteve no mês passado em visita festiva a Putin em Moscou. Os dois países possuem um comércio de US$ 32 bilhões, com tendência de crescimento. Trabalham juntos em uma série de áreas. Sem dúvida, adotam posições antagônicas em certos temas geopolíticos, como o conflito entre a Armênia (aliada da Rússia) e o Azerbaijão (aliada da Turquia).

Na Síria, os russos de fato apoiam o regime de Bashar al Assad, inimigo de Erdogan, e os turcos apoiam milícias ultra extremistas islâmicas, como a Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria), Jaysh al Fatah, além de uma relação obscura com o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh.

E os EUA? Os EUA têm como inimigo militar na Síria o ISIS. E o ISIS também é inimigo da Rússia. O governo americano pode ter uma retórica anti-Assad, aliado dos russos. Mas, em quatro anos de conflito, não fez absolutamente nenhuma ação militar contra Assad. E os rebeldes aliados dos EUA que a Rússia atacou? Os EUA não possuem rebeldes aliados relevantes na Síria, segundo o próprio Pentágono disse recentemente. Treinou umas centenas e apenas algumas dezenas estão em combate, lutando ao lado de milícias radicais como a Frente Nusrah e Jaysh al Fatah – que, embora ultra extremistas, também são inimigos do ISIS.

Para completar, EUA e Rússia possuem canais de diálogo. Certamente evitariam uma escalada, assim como evitaram em décadas de Guerra Fria, quando eram inimigos.

Resumindo, a Guerra da Síria não tem bonzinho. Todos os lados são ruins. O conflito está longe de terminar – no Líbano, foram 15 anos. Acho que temos anos de mortes pela frente. A intervenção da Rússia será apenas mais um capítulo no conflito e servirá para, no curto e médio prazo, fortalecer Assad e enfraquecer os grupos armados opositores. Esta balança pode se alterar no longo prazo, com enfraquecimento de Assad e fortalecimento da oposição. O ISIS não desparecerá, assim como o Taleban não desapareceu mesmo depois de 14 anos de intervenção dos EUA com a OTAN no Afeganistão, incluindo mais de 100 mil soldados americanos em determinado momento.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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