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Por que é tão confuso entender as divisões do Iraque?

gustavochacra

29 Abril 2016 | 10h53

Sempre leio, inclusive hoje no New York Times, que a divisão no Iraque se dá por sunitas, xiitas e curdos. Está errado. Mistura etnia e religião e não leva em consideração nuances, como pessoas que tem pai e mãe de diferentes grupos. Mas vou tentar explicar.

Primeiro, sunita e xiita são vertentes do islamismo. Podem ou não ser árabes. O maior país sunita do mundo, por exemplo, é a Indonésia, que não é árabe. E o maior país xiita do mundo é o Irã, que tampouco é árabe. A pessoa pode ser sunita e ter nascido na França e xiita e ter nascido no Canadá.

Em segundo lugar, curdo é uma etnia. Isto é, um curdo pode ser sunita, xiita, cristão, yazidi ou ateu. A maioria deles, no entanto, é sunita. Portanto, ao dividir em “sunitas, xiitas e curdos”, há um problema pois os curdos também são sunitas. Como dividir então? Uma alternativa seria escrever “árabes sunitas, árabes xiitas e curdos”. No caso dos curdos, o fator religioso pesa menos do que o étnico.

Terceiro, na Guerra do Irã-Iraque, os xiitas iraquianos lutavam pelo Exército iraquiano, controlado pelo laico, de origem sunita, Saddam Hussein, contra o Exército do Irã, que já era um regime de cunho religioso xiita. Neste caso, a “identidade iraquiana” pesou mais do que a “xiita”.


E Saddam não perseguia árabes xiitas e curdos? Perseguia, mas era uma perseguição política e não religiosa ou sectária necessariamente. O ditador iraquiano não era religioso. Como escrevi algumas vezes, seu braço direito era o cristão Tariq Aziz. Por outro lado, de fato, Saddam protegia em termos “tribais” quem era da região de Tikrit, majoritariamente sunita.

E daria para dividir o Iraque, como alguns propõem? Sim. Hoje já há uma divisão de facto. O Curdistão, no norte, é na prática uma nação independente, com quase total autonomia. Ao oeste, o Grupo Estado Islâmico, também conhecido como ISIS ou Daesh, controla as cidades majoritariamente árabes sunitas, incluindo Mossul, a segunda maior do país. Bagdá e o sul está nas mãos do governo que, embora secular, é controlado por facções xiitas – a capital iraquiana também tem muitos habitantes árabes sunitas e curdos.

Por que não dividem? No caso do Curdistão, porque não tem litoral e depende do comércio com a Turquia e o Irã. Ambos não aceitariam a independência pois incentivaria movimentos curdos internos em seus países. Para os curdos iraquianos, a “total autonomia”, equivalente à independência, já é suficiente neste momento – talvez mudem de posição no médio prazo. O ISIS quer ser um califado distorcido, mas trata-se de uma organização terrorista que não terá reconhecimento internacional. Já Bagdá e o sul árabe xiita não querem perder importantes fontes de renda, inclusive de petróleo, em outras partes do país.

Curiosamente, na época do Império Otomano, Mossul, Bagdá e Basra formavam três Províncias distintas que foram agrupadas em um só país para os britânicos darem de presente para o rei Faisal. Mas isso será tema para outro post.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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