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Por que é tão difícil de resolver a crise da Coreia do Norte?

gustavochacra

18 Abril 2017 | 10h02

Quais as posições dos EUA e da Coreia do Norte?

Os EUA querem que a Coreia do Norte abdique de todas as suas armas atômicas e encerre seu programa nuclear. A Coreia do Norte quer que os EUA reconheçam o país como uma nação nuclear, assim como a França ou o Paquistão, e retire todas as sanções impostas ao regime. Obviamente, são objetivos completamente antagônicos.

Quais as armas dos EUA para conter a Coreia do Norte?

Os EUA são a maior potência militar e nuclear do planeta, além de ser a maior economia do mundo. Podem usar a seu favor tanto pressões econômicas, por meio de sanções, como militares, por meio de ameaças de bombardeios. Some-se a isso, podem usar armas cibernéticas para sabotar o programa nuclear norte-coreano, embora seja impossível acabar com armas atômicas por esta via, além do risco de um acidente.

Esta estratégia funcionou com o Irã?

Com o Irã, esta estratégia americana funcionou. Os EUA intensificaram as sanções ao longo do primeiro mandato de Obama e sempre mantiveram a possibilidade de uma intervenção militar. O Irã, no entanto, é diferente da Coreia do Norte. Tem diferentes centros de poder e uma classe média que prefere ter qualidade de vida, não armas atômicas. Esta classe média vota em eleições competitivas e elegeu como presidente Rouhani, que concorda com esta visão. Além disso, o regime iraniano nunca chegou a ter armas atômicas e sempre insistiu que seu programa nuclear era para fins pacíficos, ainda que não fosse, segundo o governo americano.

 E por que não funciona com a Coreia do Norte?

A Coreia do Norte, por sua vez, não tem classe média e tampouco eleições com presença de opositores. A pressão econômica funciona menos, pois o regime está disposto a arcar até mesmo com a fome da sua população para manter o programa nuclear. Além disso, a China, e não os EUA, possui mais capacidade de impor custos econômicos aos norte coreanos. E, no país, vários centros de poder com diferentes visões. Mais importante, a Coreia do Norte já tem armas atômicas.

 Kim tem o mesmo medo de acabar como Saddam ou Kadafi?

Para completar, não há incentivo para os norte-coreanos abdicarem das armas. O regime avalia que, sem o seu arsenal atômico, poderia ser deposto. Basta observar o que ocorreu com Muamar Kadafi e Saddam Hussein depois de abdicarem de seus programas de armas de destruição em massa (químicas e biológicas).

 Qual a estratégia de Trump?

O aumento do poder dos EUA de barganha via sanções econômicas tem um limite na Coreia do Norte, diferentemente do que ocorreu no Irã. Sobra tentar aumentar o poder de barganha pela ameaça militar. Esta é a estratégia do governo de Trump. A imprevisibilidade do presidente americano pode assustar o ditador Kim Jong-Un e leva-lo a concessões, na avaliação dos defensores desta política.

 Como Kim pode reagir?

O problema é que a Coreia do Norte, diferentemente da Síria ou da Líbia, pode se defender e, mais grave, pode atacar. O regime norte-coreano pode lançar operações contra a Coreia do Sul e o Japão, inclusive com o uso de armas atômicas. Seria um cenário no qual todos os lados saem perdedores, mas Kim avalia que concessões o tornariam o único perdedor.

Qual a solução?

Não há alternativa simples para resolver a crise na Coreia do Norte. Por mais surreal que seja, o atual status quo talvez seja a solução no curto prazo. O problema é como os EUA podem agir se a Coreia do Norte conseguir testar com sucesso um míssil intercontinental capaz de levar uma ogiva atômica e atingir San Francisco. No médio e longo prazo, o status quo é insustentável. Há sim risco de guerra.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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