As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Por que exageram o poder do ISIS na Síria e atenuam no Iraque?

gustavochacra

19 Outubro 2015 | 12h05

Muito se fala da Guerra contra o ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh) na Síria. Mas parece haver uma amnésia em relação ao confronto contra o ISIS no Iraque, onde o grupo tem uma presença bem mais forte e maior.

Na Síria, o ISIS controla apenas uma cidade relevante – Raqaa, que fica bem distante dos outros grandes centros populacionais. Com uma população de 220 mil habitantes antes de o ISIS assumir o poder, esta cidade possuía pouca importância para a Síria. Não equivale a controlar Damasco ou Aleppo, com milhões de habitantes. Nem mesmo equivale a controlar Homs, Hama, Latakia, Tartus, Daara ou Sweida. Está distante. Seria como os EUA perderem Phoenix, no Arizona. Uma perda, mas não equivale a perder Nova York, Chicago, Washington, Los Angeles, Dallas ou mesmo Detroit.

Quando observamos no mapa uma faixa controlada pelo ISIS, parece ser um território gigantesco. Mas trata-se de deserto e, por algum motivo, nos mapas de agências internacionais colocam como controle do ISIS, mesmo sem absolutamente ninguém morar neste território. E Palmyra? Palmyra tem importância histórica, mas é uma cidade pequena, turística, no meio do deserto.

Já no Iraque, o ISIS controla simplesmente a segunda maior cidade, Mossul, com mais de 1 milhão de habitantes. Controla também Ramadi, com mais de 500 mil pessoas. E, por incrível que pareça, a força do ISIS no Iraque, que é o berço do grupo, caiu no esquecimento. Por que?

Difícil responder. O Iraque possui uma importância estratégica muito maior para o mundo do que a Síria. É uma nação rica em petróleo, tem fronteira com o Irã e foi ocupada por mais de dez anos pelos EUA. Os americanos gastaram trilhões no Iraque e apenas alguns milhões na Síria. Para completar, o Iraque possui um governo eleito democraticamente e aliado americano. Tem ainda os guerreiros Pesh Merga, também aliados americanos.

Mas, na campanha eleitoral americana, falam do ISIS como se este estivesse apenas na Síria. Alguns dizem que é para ignorar a fracassada guerra do Iraque e fomentar uma nova intervenção militar na Síria com o argumento de que não fazer nada é pior do que intervir. Uma mentira que, repetida muitas vezes, vira verdade. Uma pena. E assim começam a fornecer armas para grupos ligados à Al Qaeda na Síria como se fossem “rebeldes moderados”. Eles, em vez de lutar contra o ISIS, lutarão contra um regime laico apoiado pelos russos. Simplesmente, um replay da Guerra do Afeganistão nos anos 1980, que resultou no 11 de Setembro.

Afinal, os mujahedin armados pelos EUA se tornaram o Taleban e a Al Qaeda, os aliados contra os soviéticos. De novo, alguns republicanos e mesmo democratas aqui nos EUA veem o extremismo islâmico dos “rebeldes moderados” do Jaysh al Islam, Jaysh al Fatah e da Al Qaeda (Frente Nusrah) na Síria como aliados. Enquanto isso, o ISIS cresce no Iraque.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários na minha página no Facebook. E comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco são permitidos ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus