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Por que não falamos mais da desastrosa intervenção na Líbia?

gustavochacra

23 Outubro 2015 | 14h07

Hillary Clinton, nesta quinta, ficou 11 horas depondo para uma comissão parlamentar que investiga atentado em Benghasi. Para quem não se recorda, aquele ataque terrorista matou 4 americanos, incluindo o embaixador dos EUA na Líbia. A então secretária de Estado sempre foi criticada por republicanos por não ter feito o suficiente para proteger os diplomatas – mais ou menos como Reagan, herói republicano, não impediu que centenas de americanos morressem em atentados contra a embaixada dos EUA em Beirute e o quartel dos marines no Líbano nos anos 1980.

Mas, sem me aprofundar nesta questão da Hillary e Benghasi, queria apenas lembrar que a Líbia vive em uma sangrenta guerra civil, possui dezenas ou centanas de milícias, observa o crescimento do ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh) e da Al Qaeda, tem dois governos paralelos que não exercem controle sobre o território, vê a explosão do terrorismo e sem perspectiva de resolução.

O governo reconhecido pelo Ocidente fica em uma cidade média perto da fronteira com o Egito chamada Tobruk. Tem como integrantes milícias laicas e outras religiosas. O líder é o general Hifter, que quer ser uma espécie de “Sissi” da Líbia. Ex-aliado de Kadafi, ele viveu anos nos EUA como consultor da CIA posteriormente. Com a eclosão da guerra, voltou para a Líbia.

O outro governo, em Trípoli, a capital do país, é uma salada de milícias extremistas islâmicas similares aos grupos rebeldes da Síria. A ONU tentou negociar um governo de união nacional, mas os dois lados não chegam a um acordo. E continuam se matando, especialmente em Benghasi. Enquanto isso, o ISIS cresce a partir de Sirte.

A intervenção na Líbia foi um fiasco total, algo grotesco, que deve ser colocado na conta da França, que idealizou o projeto, de países como os Emirados Árabes e de algumas outras nações europeias e árabes. Os EUA erraram ao apoiar esta patética intervenção idealizada por Bernard Henry Levy, que convenceu Sarkozy. Rússia, Brasil, Alemanha e China se abstiveram de apoiar esta intervenção.

Lembro bem de, cobrindo o Conselho de Segurança da ONU, ver os franceses idealizando uma Líbia “democrática” pós Kadafi. Deu completamente errado. Imaginem a gritaria se fosse uma intervenção dos EUA? Dois pesos e duas medidas. Não sei o motivo, mas muita gente vê os franceses como os “maduros racionais pacifistas” e os americanos como “broncos que só gostam de guerra”. A Guerra da Argélia que o diga…

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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