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Por que o apoio de Putin a Assad pode ajudar Netanyahu?

gustavochacra

02 Outubro 2015 | 12h51

No meu post de ontem, fiz um guia para entender a intervenção da Rússia na Síria. Em um dos itens, mencionei como Israel seria afetado. Hoje, me aprofundarei um pouco mais.

Basicamente, a intervenção da Rússia para a defender o regime de Bashar al Assad na Síria pode beneficiar Israel. E não será apenas porque os russos combaterão organizações terroristas e extremistas como o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, e a Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria). O maior benefício israelense será na redução do poder de influência do regime de Teerã sobre Damasco.

Os iranianos e seus aliados do Hezbollah, como sabemos, não possuem identificação ideológica com Assad, que lidera um regime laico. São aliados de ocasião. O regime de Teerã precisa logisticamente de Assad para manter o Hezbollah bem armado em uma frente contra Israel. E Assad precisa do Irã porque não tem muitos aliados pelo mundo e comparte do ódio pelo extremismo islâmico sunita.

Com a eclosão da Guerra da Síria e o caos que se instalou, o Irã e o Hezbollah perceberam uma brecha nas colinas do Golã para tentar instalar uma nova frente com bases de lançamentos de mísseis contra Israel. A vantagem, em relação ao sul do Líbano, é que, em caso de conflito, os mísseis seriam lançados do território sírio. Desta forma, Israel teria de responder contra a Síria, e não contra o Líbano. O Hezbollah, portanto, não correria o risco de ver o território libanês arrasado por bombardeios israelenses como ocorreu em 2006. A aliança do grupo xiita com os principais grupos cristãos libaneses, como a Frente Patriótica Nacional de Michel Aoun, não seria afetada.

Assad, enfraquecido, tem de tolerar estas iniciativas do regime de Teerã e do Hezbollah. Sem o grupo xiita e sem o regime de Teerã, talvez sequer estivesse no poder em Damasco. O líder sírio depende de ambos para continuar no comando do país.

Com a intervenção da Rússia, porém, a equação muda. O regime sírio fica menos dependente dos iranianos e do grupo xiita libanês. Os russos, como sabemos, não devem permitir ameaças a Israel. Putin e Netanyahu se dão bem e possuem ótimos canais de diálogo. O líder israelense é mais próximo do líder russo do que de Barack Obama, presidente dos EUA. E Assad, avesso a religião embora alauíta de nascimento (sua mulher é sunita liberal e usa All Star e Levi’s em vez de véu), até prefere Putin aos religiosos do Irã e do Hezbollah – se Assad tivesse assinado a paz com Israel em 2008, teria possivelmente dado um pé na bunda dos iranianos e hoje seria talvez o maior aliado americano no combate ao terrorismo global, sendo chamado de estadista por republicanos e democratas em Washington.

Moscou, portanto, pode ajudar a afastar um pouco Assad do Irã e do Hezbollah, embora não o suficiente para quebrar a aliança – mesmo porque a Rússia também possui boas relações com o Irã. Mas certamente Putin não irá permitir que sua ofensiva seja prejudicial a Israel. Se houver sucesso, os russos tendem a tentar impedir o estabelecimento de bases de lançamento de mísseis no Golã.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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