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Por que o Império Otomano era melhor do que os países que o substituíram?

gustavochacra

28 Abril 2016 | 10h41

Antes da Grande Guerra, 80 mil dos 220 mil habitantes de Bagdá eram judeus. Mais da metade da população de Istambul era formada por minorias religiosas como cristãos ortodoxos, armênios e judeus. O mesmo vale para Smyrna (Izmir). Aleppo, Damasco, Beirute, Alexandria e Cairo eram exemplos de outras cidades onde judeus, cristãos e muçulmanos coexistiam bem.

Istambul, apenas para lembrar, era a capital do Império Otomano. O sultão era literalmente a maior liderança do islamismo sunita na época. Esta liderança garantia a segurança das minorias religiosas por séculos através do millets, como expliquei ontem. Judeus estavam muito mais seguros entre os muçulmanos do que na Cristandade europeia, onde eram perseguidos. Os seguidores da religião judaica se destacavam como figuras proeminentes do Yemen ao Marrocos, do Irã ao Egito.

A sede da Igreja Cristã Ortodoxa ficava em Istambul, capital do principal império islâmico do mundo – aliás, ainda está baseada na Turquia, com patriarcados cristãos ortodoxos nas também majoritariamente islâmicas Alexandria, Jerusalém Oriental e Damasco. Cristãos, não apenas ortodoxos, mas também maronitas, melquitas, coptas, caldeus e assírios, puderam viver por séculos como minoria no Império Otomano.

Embates religiosos sempre existiram, mas em uma escala muito menor do que na Europa. Para padrões da época, nenhum lugar do mundo tratava tão bem as minorias religiosas como os otomanos.


Por este motivo, é um erro dizer que exista ódio milenar entre judeus e muçulmanos. Estas duas religiões conviveram muito bem por séculos. Perseguidos na Europa, os judeus conseguiram abrigo e proteção no mundo islâmico – e note que os judeus viviam muito bem na Península Ibérica quando esta estava nas mãos dos muçulmanos e não dos católicos. O Grupo Estado Islâmico, também conhecido como ISIS ou Daesh, o Taleban e mesmo a Arábia Saudita não representam um retorno à Idade Média – eles são, na realidade, infinitamente mais radicais e intolerantes do que os muçulmanos da Idade Média, que inclusive foram fundamentais para o desenvolvimento da medicina e da matemática.

Também é um erro dizer que muçulmanos e cristãos não podem conviver juntos. Conviveram muito bem por séculos no Império Otomano. O nacionalismo do início do século 20, e não a religião, foi responsável direta pelo Genocídio de armênios, de gregos e de assírios, além da perseguição a curdos e mesmo a cristãos árabes na Síria e no Líbano.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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