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Por que o Líbano ficou estável em meio ao caos político mundial?

gustavochacra

19 Dezembro 2016 | 12h36

O Líbano sempre foi visto como uma nação instável. Não apenas pela Guerra Civil entre 1975 e 90, mas também pelos conflitos e crises políticas nos últimos 25 anos. Os libaneses chegaram a ficar sem presidente por mais de dois anos e apenas conseguiram eleger um pouco mais de um mês atrás. Alguns até dizem que o futuro do mundo pode ser algo similar a Beirute.

Ironicamente, diante deste mundo político instável inclusive nos EUA e na Europa, mas acima de tudo no Oriente Médio, o Líbano se torna uma nação estável, apesar de ter como vizinhos um país oficialmente inimigo (Israel) e uma nação destroçada pela maior guerra em andamento no mundo (Síria). Sem falar que é a nação do mundo com maior número de refugiados per capita – um em cada quatro habitantes é refugiado sírio ou palestino. Há mais refugiados sírios no Líbano do que nos EUA e Europa somados.

Neste domingo, o Líbano consolidou a estabilidade e formou um governo de união nacional, com as mais variadas correntes políticas, sob o comando de Saad Hariri no cargo de primeiro-ministro. Esta coalizão inclui os principais grupos cristãos, muçulmanos sunitas, xiitas e drusos. Há inimigos declarados, como o próprio premiê e o Hezbollah – a organização xiita é acusada de ter matado o pai dele, Rafik Hariri, um dos maiores líderes da história libanesa, em atentado terrorista em 2005. Mas todos estão colocando a estabilidade em primeiro lugar.

O novo gabinete ministerial segue as regras tradicionais libanesas. Será composto por metade de cristãos de diferentes denominações (maronita, ortodoxo, melquita, armênio) e metade muçulmana (sunita e xiita, além dos drusos). É o mesmo modelo aplicado ao Parlamento libanês, também subdividido meio a meio entre cristãos e muçulmanos. Vale lembrar que, apesar disso, a política libanesa não se divide entre cristãos e muçulmanos. A principal divisão no âmbito político se dá entre xiitas e sunitas, com cristãos dos dois lados, embora a maioria ao lado dos xiitas.

O mais interessante do Líbano, neste momento de surpreendente estabilidade, é que o presidente, Michel Aoun, pode ser considerado o mais poderoso líder cristão. O premiê, Hariri, é o maior líder sunita. No caso dos xiitas, que tem direito ao cargo de presidente do Parlamento, Nabi Berri, da AMAL, seria o maior líder político. Mas o principal líder é o xeque Hassan Nasrallah, do Hezbollah, que não se envolve em política.

E sabem por que o Líbano ficou estável? Porque atores estrangeiros, como Irã, Arábia Saudita, Síria e EUA, não se envolvem nas questões políticas libanesas como antes. O Iraque e a Síria, ambos em guerra, são mais importantes. E, sem os estrangeiros para atrapalhar, o Líbano tem tudo para se consolidar como uma das raras democracias do mundo árabe – as outras são a Tunísia e o Iraque (este último é bem mais complexo).

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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