As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Por que os EUA são aliados da Arábia Saudita?

gustavochacra

21 Abril 2017 | 17h01

A Arábia Saudita talvez seja a nação com o regime mais extremista religioso do planeta, onde mulheres e minorias religiosas são tratada como segunda classe e os gays são considerados criminosos. A Arábia Saudita também difunde a ideologia wahabbita, que é uma vertente ultra radical do islamismo sunita adotada pelo ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh), Al Qaeda, Al Shabab (grupo terrorista da Somália), Taleban e Boko Haram. Ainda assim, o regime misógino, homofóbico e islamofascista dominado por um braço da família Saud segue como o maior aliado dos EUA no mundo árabe e no mundo islâmico. Isso se deve tanto ao petróleo como interesses geopolíticos comuns, como conter o Irã.

Não interessa se o presidente é Roosevelt, Truman, Eisenhower, Kennedy, Lyndon Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho ou Obama, todos mantiveram aliança com os sauditas. Verdade, Obama até bateu um pouco de frente em determinados temas como o acordo nuclear com o Irã, mas jamais tratou o regime de Riad como adversário. Agora é a vez de Trump agir como seus antecessores se aproximar dos sauditas.

O presidente americano, que diz condenar o radicalismo islâmico, já entrou em sintonia justamente com um dos regimes que propaga o radicalismo islâmico (o outro é o Irã, mas pela via dos xiitas). Aliás, Trump tentou bloquear a entrada de cidadãos de seis nações de maioria islâmica cujos cidadãos nunca realizaram atentados fatais nos EUA, mas deixou de fora a Arábia Saudita, apesar de 15 dos 19 terroristas do 11 de Setembro serem sauditas (note que sou contra bloquear sauditas e acho absurdo generalizar toda a população saudita como radical, mas isso serve de exemplo da hipocrisia da atua administração).

Agora, Trump buscará uma aproximação ainda maior com o regime ditatorial em Riad. Em alguns temas, pode ser positivo, como no apoio a facções mais moderadas no Iraque, um país hoje controlado por xiitas aliados do Irã que tratam sunitas como cidadãos de segunda classe. Em outros, como na sangrenta guerra que a Arábia Saudita lança no Yemen, os EUA deveriam negociar a paz, não armar um dos lados – no caso, os sauditas. Na Síria, os EUA não deviam tolerar o patrocínio da Arábia Saudita a alguns grupos rebeldes jihadistas responsáveis por ataques a minorias religiosas, incluindo cristãos. Poderiam não intervir ou fortalecer rebeldes moderados, cada vez mais enfraquecidos, para lutar contra o sanguinário regime de Bashar al Assad.


Infelizmente, os EUA não fazem nada para a Arábia Saudita reduzir o discurso antissemita no mundo islâmico, para a Arábia Saudita reduzir o discurso anti-cristão no mundo islâmico, para a Arábia Saudita parar de propagar o discurso anti-xiita e anti-alauíta no mundo islâmico sunita e para a Arábia Saudita parar de sabotar as facções mais moderadas do islamismo sunita.

Por séculos, minha família, cristã libanesa, viveu em meio a muçulmanos no mundo árabe. Tinham judeus também. Cada vez mais, no entanto, cresce uma intolerância disseminada em parte pelo regime da Arábia Saudita, que busca destruir vertentes mais tolerantes do islamismo. Isso não ocorre apenas no mundo árabe ou no mundo islâmico. Atinge também comunidades muçulmanas no Ocidente ao radicalizar jovens. Esta disseminação do radicalismo islâmico não apenas enfraquece as vertentes moderadas do islamismo como também cria uma reação odiosa por meio da islamofobia.

Há ainda enorme tolerância religiosa no Líbano e, em menor escala, na Jordânia, na Tunísia, no Marrocos e mesmo na Argélia (eu me refiro ao mundo árabe apenas). Em todos estes lugares, porém, está diminuindo. Temo pelo dia que não tenhamos mais os Patriarcados cristãos em Damasco, incluindo o Patriarcado Grego-Ortodoxo Antioquino, religião do meu avô Adib Chacra. Já a mágica e tolerante Beirute, no entanto, ainda está longe de se tornar a intolerante Riad.

Que fique claro, há sim um movimento dentro do regime saudita para algumas “liberalizações”, incluindo em relação a mulheres. Vale notar o investimento em educação e tecnologia. Não é simples se abrir e se democratizar para um regime que sofre pressão de setores ainda mais conservadores da sociedade. De fato, o regime teve de fechar após a tomada da mesquita de Mecca por radicais em 1979. Ainda assim, nada justifica o extremismo do regime saudita. Por último, o Irã, pelo lado xiita, também tem enorme responsabilidade pela emergência radicalismo islâmico nas últimas quatro décadas, embora o regime iraniano tenha muito mais liberdades do que o saudita.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários na minha página no Facebook. Peço que evitem comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores. Também evitem ataques entre leitores ou contra o blogueiro.  Não postem vídeos ou textos de terceiros. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a minha opinião e não tenho condições de monitorar todos os comentários
Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor) e no Instagram