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Por que republicanos fracassam em eleições com agenda de Trump?

gustavochacra

08 Novembro 2017 | 13h44

As derrotas de candidatos republicanos para democratas nas disputas pelos governos da Virginia e de Nova Jersey por amplas margens demonstram que, primeiro, Donald Trump segue popular dentro da base republicana, mas extremamente impopular se levarmos em conta todo o eleitorado americano. Em segundo lugar, o “trumpismo” funciona com Trump, mas não necessariamente com quem busca replicá-lo.

A disputa pelo governo da Virginia, por ser um swing state, sem predominância de democratas ou republicanos e ter um histórico os dois partidos conseguirem eleger governadores, era considerada a eleição mais importante de ontem. Trump jogou todo o seu apoio para o candidato republicano Ed Gillepsie, que, apesar de ser establishment, adotou a agenda trompista. Mas acabou derrotado por quase nove pontos percentuais para o democrata Ralph Norton (53,7% a 45,1%). No Twitter, Trump, de forma desleal, tentou se distanciar do derrotado. Mas não tem como apagar o passado. Foi uma gigantesca vitória dos democratas.

Nova Jersey de fato, em eleições presidenciais, tende a votar democrata. Mas é governada pelo republicano Chris Christie há dois mandatos. Em 2013, quando foi reeleito com 22 pontos de vantagem em um Estado tradicionalmente democrata, o atual governador era visto como favorito para ser o candidato do Partido Republicano três anos mais tarde para a Casa Branca. Escândalos o enfraqueceram acentuadamente. Até tentou disputar as primárias, mas foi um fiasco. No fim, apoiou Trump. Sua popularidade despencou ainda mais e hoje é governador um dos mais impopulares governadores da história dos Estados Unidos.

Era natural, portanto, que a candidata republicana Kim Guadagno, com sua agenda “trumpista”, fosse derrotada. E foi o que aconteceu. O vencedor foi o liberal (progressista) multimilionário ex-banqueiro de Wall Street Philip Murphy, por 55,4% a 45,2% (difícil imaginar alguém mais globalista do que o novo governador de Nova Jersey).

E não foram apenas derrotas nas eleições para governadores, mas também em uma série de disputas para deputados, sendo a mais simbólica na Virginia, onde um candidato democrata trangênero derrotou o candidato homofóbico republicano que tentou implementar a lei proibindo os transgêneros de frequentarem os banheiros de sua identidade.

Teve também Nova York, onde o prefeito Bill de Blasio foi reeleito com dois terços dos votos – noto, neste caso, que a candidata republicana não tinha uma agenda trumpista. Foram 66,5% dos votos contra 27,8% de Nicole Malliotakis. Em Manhattan, região onde mora Trump, De Blasio, um dos maiores críticos do presidente nos EUA, teve 72% dos votos.

Os republicanos terão, portanto, no ano que vem um desafio. Adotam a agenda trumpista para vencer as primárias, correndo o risco de perder nas eleições gerais para democratas, ou optam pelo conservadorismo republicano anti-Trump, correndo o risco de perder nas primárias?

Na média das pesquisas, 56,8% dos americanos desaprovam a administração de Trump contra 37,5% que aprovam. O número é recorde negativo. E mais grave ainda se levarmos em conta que os EUA passam por um bom momento econômico, com o atual presidente mantendo a tendência de queda na taxa de desemprego iniciada na administração de Barack Obama em outubro de 2009, as altas na Bolsa também iniciadas no governo anterior em há oito anos e o crescimento do PIB (mais uma vez, seguindo a tendência do antecessor). Imagine se economia se retrair em consequência de algum fenômeno cíclico?

Por outro lado, Trump segue extremamente popular entre os republicanos. Basicamente, o partido aos poucos deixa de ser conservador tradicional e passa a ser trompista, seguindo a linha de partidos populistas de esquerda e direita na América Latina.