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Por que Trump não tem culpa pela Guerra da Síria?

gustavochacra

05 Abril 2017 | 12h32

Sou crítico de Donald Trump em uma série de questões, como imigração, política comercial e de saúde, entre outras. A Guerra da Síria, porém, em hipótese alguma é culpa do atual presidente dos EUA. Inclusive, as propostas de Trump para lidar com o conflito são bem mais realistas do que as de sua rival Hillary Clinton e não se diferem muito das de Barack Obama. E, claro, Trump assumiu pouco antes do aniversário de seis anos da Guerra da Síria, quando já havia centenas de milhares de mortos.

Alguns gritam agora que “Trump deveria interferir na Síria e o ataque químico é culpa dele”, mas o presidente americano não realizou a ação de ontem em Idlib e deixou claro que não se envolverá na Guerra da Síria (em post ontem comento sobre o ataque especificamente e sobre a culpa ou não de Assad). “Ah, mas Trump deu a entender que a permanência Bashar al Assad no poder não é prioridade dele”. E não deve ser mesmo.

O que estas pessoas defendem? Defendem que os EUA enviem centenas de milhares de militares para derrubar Assad, gastem trilhões e permaneçam na Síria por anos para tentar reconstruir o país, como nas fracassadas intervenções no Iraque e no Afeganistão? Ou apenas derrubem Assad e larguem o país como na fracassada intervenção na Líbia contra Muamar Kadafi? Estas pessoas defendem que Trump apoie os jihadistas da oposição síria, muitas vezes ligados à Al Qaeda e responsáveis por atrocidades?

A Guerra da Síria envolve um regime laico sanguinário contra uma oposição jihadista e sanguinária. Além deles, há ainda os grupos curdos e o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Assad é péssimo, mas tem capacidade de estabilizar as principais partes do país, abrindo espaço para o foco se concentrar no combate ao ISIS.


E como seria esta operação para derrubar Assad, como queria Hillary com “sua zona de exclusão aérea” e seu patético histórico na intervenção na Líbia? Bom, primeiro teriam de enfrentar uma guerra contra as forças sírias, as russas, as iranianas, o Hezbollah e mais dezenas de milícias pró-governo. Depois, caso obtenham sucesso, verão as forças sírias se pulverizarem em várias milícias com armamentos pesados. Por último, a chance de jihadistas radicais ou mesmo do ISIS se fortalecerem é enorme. A Síria não vai se transformar no Canadá. Mas este é tema para outro post.

E Obama? Obama, basicamente, agia como Trump, apesar da retórica um pouco mais anti-Assad. No começo, até caiu um pouco no conto de Hillary e armou opositores, além de ter dado aquele ultimato bizarro contra o líder sírio. Depois, evoluiu e percebeu que a oposição a Assad, inicialmente legítima, se tornou jihadista. Sua estratégia, corretamente, passou a ser a de lutar contra o ISIS. Trump deve seguir na mesma linha. E, sim, devem continuar condenando as ações de Assad, sem necessariamente defender a queda dele.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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