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Quais são as milícias cristãs siríacas na Guerra da Síria?

gustavochacra

17 Fevereiro 2017 | 21h26

Provavelmente vocês nunca ouviram falar da Federação Autonôma de Rojava. Tampouco sabem a diferença entre as milícias cristãs Sutoro e Sootoro. Enfim, este post será para mostrar uma outra face da Guerra da Síria e também do cristianismo oriental.

Ao contrário do que muitos imaginam, o conflito sírio não envolve apenas o regime de Bashar al Assad, com o apoio do Irã e da Rússia, contra grupos rebeldes e o ISIS, também conhecido Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Há dezenas de milícias lutando a favor do regime; e há dezenas ou mesmo centenas de milícias entre os rebeldes. Além destas, há diversos grupos curdos, sendo o mais importante o YPG.

E agora passamos para a diferença entre as milícias Sutoru e Sootoro. Ambas são cristãs. Mas não são cristãs grego-ortodoxas, que é a maior corrente cristã da Síria – também há milícias cristãs grego-ortodoxas na Síria e no Líbano, mas seriam tema de outro post. A Sutoru e a Sootoru são cristãs assírias com minorias cristãs armênias. Os cristãos assírios se concentram mais no norte e no leste da Síria e também no Iraque. Costumam falar siríaco, que é derivado do aramaico. Diferentemente dos grego-ortodoxos e dos grego-católicos (melquitas), não integram a elite tradicional de Damasco e Homs, embora possuam presença maior em Aleppo.

Estas milícias foram formadas para proteger vilas cristãs no norte da Síria de ataques não apenas do ISIS, como também de outras facções rebeldes, como a Frente de Conquista do Levante (antiga Frente Nusrah, que é a Al Qaeda da Síria), o Jeysh al Islam (Exército do Islã) e outras.

E qual a diferença entre estes dois grupos? A milícia cristã Sootoru é aliada do regime de Bashar al Assad e tem apoio e treinamento do Irã e do Hezbollah. Defende uma Síria unificada sob o comando de Damasco. Já a milícia cristã Sutoru é aliada do grupo curdo YPG (lembro que os curdos são majoritariamente muçulmanos sunitas) e defende uma Síria federalizada, com Rojava sendo uma região autônoma nos moldes do Curdistão iraquiano – o YPG é o braço do PKK (grupo separatistas curdo considerado terrorista pela Turquia) na Síria.

Rojava, no norte da Síria, ao longo da fronteira com a Turquia, é supostamente secular, com a presença majoritária de curdos e minorias turcomenas, circacianas, armênias, assírias e árabe-sunita. Os maiores inimigos de Rojava são a Turquia, o ISIS e grupos rebeldes. Há uma certa “coexistência” com o regime de Damasco neste momento.

E o que quer dizer Sutoru e Sootoru? É uma sigla siríaco para Forças de Segurança (ou Proteção) Siríacas, transliterada de diferentes formas do siríaco para o alfabeto latino. Noto que os cristãos assírios algumas vezes se identificam como arameus ou caldeus, especialmente se estiverem no Iraque. A Igreja Siríaca-Ortodoxa Antioquina tem o seu Patriarcado em Damasco – não confundir com a Igreja Grego-Ortodoxa Antioquina, também com patriarcado na capital da Síria. A Igreja Siríaca-Católica tem a sua sede em Beirute, no Líbano.

Noto que a Igreja Cristã Maronita, em comunhão com o Vaticano, é majoritária entre cristãos libaneses (presidente do Líbano, por consenso, sempre tem de ser cristão maronita) também possui rito siríaco (Patriarcado no Líbano). Há também a Igreja Católica Caldeia, também em comunhão com o Vaticano, com patriarcado em Bagdá.

Há uma série de outras vertentes cristãs no mundo árabe, como os melquitas (grego-católicos) – Patriarcado também em Damasco. E os cristãos coptas do Egito, que são os mais numerosos.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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