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Qual a diferença entre os palestinos de Jerusalém e os de Gaza?

gustavochacra

16 Outubro 2015 | 10h38

Já escrevi aqui outras vezes, mas não custa repetir. Os palestinos têm mais ou menos direitos dependendo de onde eles vivem. E estas diferenças são necessárias para entender tanto os recentes ataques com facas contra israelenses como também as alternativas para Israel coibir estas ações.

Basicamente, os palestinos se dividem nos seguintes grupos – palestinos da Cisjordânia, palestinos da Faixa de Gaza, palestinos de Jerusalém, árabes-israelenses e refugiados palestinos. Estes últimos também se diferem dependendo do país onde vivem

Palestinos da Cisjordânia – é onde vive a maior parte dos palestinos. Eles são governados pela Autoridade Palestina, mas sob ocupação militar e civil (assentamentos) de Israel. As forças policiais palestinas agem em coordenação com as de Israel. Residem em cidades como Ramallah, Belém, Jericó, Jenin e Hebron. Este território faria parte do futuro Estado palestino. Para cruzarem para Israel, necessitam de uma difícil autorização das autoridades israelenses. Mas muitos podem cruzar livremente para Jordânia

Palestinos da Faixa de Gaza – é uma área bem mais conservadora do que a Cisjordânia e fica à beira do Mediterrâneo. São governados pelo Hamas, em meio a bloqueio terrestre, aéreo e marítimo israelense e terrestre egípcio. Apenas em raríssimos casos recebem autorização para entrar em Israel ou no Egito. Mesmo estudantes que recebem bolsas de prestigiadas universidades americanas para doutorado e atletas são barrados muitas vezes. As forças do Hamas são inimigas das de Israel e, em determinadas épocas, lançam foguetes contra os sul israelense. Israel costuma responder. Por duas vezes, a escalada levou a guerras. Este território também integraria o futuro Estado palestino

Palestinos de Jerusalém – são os palestinos ou descendentes que viviam na parte oriental da cidade quando esta foi conquistada e posteriormente anexada por Israel como resultado da Guerra dos Seis Dias em 1967. Após a anexação, muitos palestinos (tanto cristãos como muçulmanos) receberam o direito à cidadania, mas a maioria não aceitou. Mesmo assim, podem viver em Israel e circular normalmente pelo país. Reclamam acima de tudo de obstáculos burocráticos para, por exemplo, reformar suas casas, o que, segundo eles, visa força-los a deixar a cidade

Árabes-Israelenses – são os palestinos cidadãos de Israel. Eles viviam no que hoje é o Estado israelense depois da independência em 1948 e não foram expulsos ou imigraram para países vizinhos. Vivem por todo o país, mas principalmente em cidades árabes como Nazaré ou mistas como Haifa. Os cristãos e os sunitas raramente fazem Exército, pois se identificam como palestinos. Entre os drusos, é mais comum. Reclamam de serem tratados como cidadãos de segunda classe. O governo israelense rebate, dizendo que eles possuem todos os direitos e alguns atingiram altos cargos no país

Refugiados palestinos – Na Jordânia, possuem todos os direitos, incluindo a cidadania. Na Síria, antes da guerra, também tinham todos os direitos (saúde e educação gratuitas), mas não a cidadania. Agora, estão no meio do conflito e sofrem como os sírios – Assad considera o Hamas traidor por ter se aliado a rebeldes da oposição. No Líbano, os cristãos palestinos receberam cidadania. Já os sunitas são tratados como cidadãos de segunda classe, apesar de alguns estarem na terceira geração no país. Normalmente, os cristãos e xiitas libaneses são contra a concessão de cidadania, pois isso aumentaria a população sunita libanesa, afetando o equilíbrio da balança sectária

E como isso afeta Israel no combate aos ataques com facas?

Esqueça, neste caso, os refugiados. Os palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza podem ser barrados nos postos de controle e nas barreiras (muro ou cerca, dependendo do lugar). Já os árabes-israelenses e os palestinos de Jerusalém podem circular livremente por Israel. E eles são os principais responsáveis pelos recentes ataques. Isso dificulta muito a forma como as forças israelenses conseguem impedir os esfaqueamentos. Além disso, muitas ações são por impulsão. O terrorista decide, alguns casos, segundos antes da ação. Em outros, horas ou dias. E a maior parte deles atua como lobos solitários, sem ligação com grupos como o Hamas

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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