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Qual a lógica de Assad ter usado armas químicas?

gustavochacra

04 Abril 2017 | 22h05

A lógica indica que o regime de Bashar al Assad, com o apoio da Rússia e do Irã, pode matar indiscriminadamente civis por meio de bombardeios com armas convencionais em áreas controladas por rebeldes jihadistas sem ser importunado pelas grandes potências ocidentais e pela “opinião pública”. Ao mesmo tempo, o líder sírio sabe que sofrerá enormes condenações internacionais se usar armamentos químicos.

Neste momento, Assad vence a Guerra da Síria. Controla as principais cidades do país e conquistou uma gigantesca vitória ao unificar Aleppo no fim do ano passado. Assad tem ainda o apoio da Rússia e do Irã. Desde sexta-feira, os EUA deixaram claro que o futuro do líder sírio não é a prioridade americana, que se focará no combate ao ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. O Reino Unido está preocupado com o Brexit. Marine Le Pen, que pode ser eleita presidente da França, simpatiza com Assad. A China fará comércio com o regime de Assad ou com quem estiver no poder em Damasco independentemente da ideologia.

Logo, usando a lógica, insisto, Assad poderia continuar sua sanguinária guerra sem se preocupar com fatores externos. O objetivo agora era reconquistar Idlib. Basicamente, teria nas mãos quase toda a “Síria útil”. Verdade, tem grupos curdos que controlam o território na fronteira com a Turquia. Mas eles não são inimigos de Assad. E tem o ISIS em Raqqa, mas a tarefa de combater o grupo, na visão de Assad, está a cargo de Trump. Depois, na avaliação dele, naturalmente o regime assumirá o controle desta cidade.

Por que então Assad teria usado armas químicas em Idlib se, caso suas forças usassem armas convencionais, o massacre seria praticamente ignorado no exterior? Por este motivo, surge a versão de que algum grupo rebelde, talvez ligado a Al Qaeda, teria sido responsável por tramar uma ação com armas químicas justamente para culpar Assad e pressionar Trump a agir contra o líder sírio. Mas e o avião? Nesta teoria, defendida pelo Assad e por russos (e também por algumas pessoas no Ocidente), não teria avião nenhum.


E se foi Assad mesmo? Acompanho há anos o líder sírio e apenas uma vez vi uma ação que não teve lógica e talvez haja ligação com o seu regime. Foi quando o então ex-premiê e líder da oposição libanesa Rafik Hariri, um dos maiores estadistas da história da Líbano, foi morto em atentado em Beirute em fevereiro de 2005. Ele era inimigo da Síria. Oficialmente, o Hezbollah é acusado pelo ataque, mas seria improvável o grupo realizar esta ação sem o conhecimento do regime de Damasco, que controlava militarmente o Líbano. O resultado deste atentado foi a realização de gigantescos protestos em Beirute que forçaram a Síria a retirar suas tropas do território libanês depois de quase 30 anos. Vale lembrar que Assad nunca provocou Israel porque sabe o que ocorreria – isso demonstra claramente que Assad tem lógica.

Mas tem uma terceira  possibilidade se lembrarmos do caráter mafioso do regime de Assad é mafioso. O líder sírio é o poderoso chefão, mas isso não significa que, depois de seis anos de guerra, ele controle totalmente as forças sírias. Há outros centros de poder. E algum comandante, à revelia de Assad, pode ter autorizado o uso de armas químicas – esta é a versão que eu considero mais provável.

No fim, não saberemos nunca ao certo o que ocorreu em Idlib. As potências ocidentais condenarão retoricamente a Síria no Conselho de Segurança da ONU, mas o assunto tende a ser esquecido nos próximos dias. O triste mesmo é ver as imagens das crianças mortas. Desta vez, por armas químicas, mas há dezenas de milhares que morreram em bombardeios convencionais do regime sanguinário de Assad, em ataques do ISIS ou de rebeldes jihadistas terroristas muitas vezes ligados à Al Qaeda. Não tem bonzinho na Guerra da Síria.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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