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Qual o equivalente da destruição de Aleppo em SP e no Rio?

gustavochacra

13 Dezembro 2016 | 13h06

O regime sírio, com o apoio da Rússia, do Irã e do Hezbollah, conseguiu reunificar Aleppo. A cidade síria estava dividida em duas ao longo dos últimos anos. O lado oeste, com as forças de Bashar al Assad, tem vida relativamente normal. Estudantes frequentam universidades, hospitais funcionam, restaurantes cheios, baladas e até o pessoal jogando futebol no clube. Já o lado leste era um dos lugares mais infernais na face da terra, sob controle de grupos rebeldes, sendo alguns deles apoiados pelos EUA, e outros ligados à Al Qaeda, como a Frente de Conquista do Levante (antiga Frente Nusrah).

Esta divisão também se dava pelas características de cada lado. A parte controlada pelo regime de Assad tinha muitos cristãos (armênios, grego-ortodoxos, melquitas e assírios) e muçulmanos sunitas moderados e alauítas. Representava de uma certa forma a Aleppo multicultural, que foi por séculos uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, incluindo uma proeminente população judaica. Já o lado leste vivia um conservadorismo extremista islâmico dos grupos rebeldes, inclusive os apoiados pelos EUA.

Para comparar a São Paulo, imaginem que toda a zona leste e norte estivesse com os rebeldes. Isto é, Santana, Mooca, Tatuapé, Itaquera e todos os outros bairros. Imagine que eles tenham sido bombardeados até se tornarem ruínas, com milhares de mortos e destruição de hospitais e escolas. Agora imagine que, ao mesmo tempo, Jardins, Pinheiros, Higienópolis, Morumbi e Moema estivessem com a vida “relativamente” normal (não totalmente, que fique claro, pois muitos perderam parentes na guerra e há falta de produtos, além do medo do conflito). Os alunos da Faap indo para a faculdade, o pessoal nos bares da Vila Madalena e doentes em hospitais como o HC ou o Sírio.

Para comparar com o Rio, imagine que toda a zona norte e baixada fluminense tenha sido destruída, com milhares de seus habitantes mortos. Enquanto isso, a vida seguindo normal na zona sul e na Barra, com o centro da cidade parcialmente em ruínas.

Claro, Aleppo é mais pobre (embora bem menos desigual) do que São Paulo e o Rio e tem o tamanho de Belo Horizonte. Meu objetivo nesta comparação foi dar a dimensão do que ocorre na cidade.

Agora, será um trabalho árduo de reconstrução de Aleppo. Beirute teve seu centro destruído na guerra civil libanesa (1975-90) e demorou até 2003 para se reconstruir totalmente – hoje a área é magnífica. Em Aleppo, talvez demore mais, pois a guerra ainda está distante de terminar, apesar de claramente Assad estar fortalecido e controlar os principais centros populacionais. E os sobreviventes do lado leste, mesmo que não sejam rebeldes, correm o risco de serem torturados e mortos pelo regime.

Guerra é guerra. Não há lado “bom” e “ruim”. No caso da Síria, a vitória de Assad em Aleppo traz uma enormidade de consequências. Mas isso é tema para outro post.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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