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Qual seria a lógica de Trump bombardear Assad?

gustavochacra

06 Abril 2017 | 09h54

Pela lógica, Donald Trump ordenará bombardeios simbólicos contra alvos do regime de Bashar al Assad nas próximas semanas, mudando sua política para a Guerra da Síria (meu texto de ontem foi publicado antes de declarações mais duras do presidente americano em relação ao líder sírio).

Estes possíveis bombardeios, se ocorrerem, não teriam o objetivo de derrubar Assad, acusado de ser responsável pelo ataque químico na Província de Idlib (o líder sírio nega). O governo Trump, assim como o de Obama, sabe que não há uma alternativa aceitável para o lugar de Assad. Idlib, por exemplo, é controlado por um grupo rebelde anti-Assad ligado à rede terrorista Al Qaeda.

Ainda assim, existe lógica para Trump em uma ação – note que isso não significa que eu concorde. Avalio que todas as intervenções dos EUA no século 21 no Oriente Médio e Ásia Central foram fracassadas – Afeganistão, Iraque e Líbia. E, no caso da Síria, não podemos esquecer do envolvimento russo, iraniano e do Hezbollah. Certamente, o custo será grande.

Por que então seria lógico para Trump? Primeiro, porque, como escrevi acima, o objetivo não seria derrubar Assad. Seriam ataques similares aos ordenados por Reagan nos anos 1980 contra Kadafi. Serviriam como punição a Assad. Em segundo lugar, Trump se posicionaria “como mais duro do que Obama”, que não bombardeou Assad depois de outro ataque químico atribuído ao líder sírio (na época, Trump também disse ser contra). Terceiro, Trump se distanciaria de seus fracassos em política doméstica, ganhando força dentro do establishment republicano e mesmo entre parte da população. Por último, Trump mostraria que não tem medo de se posicionar contra Putin, buscando silenciar as acusações de conluio entre sua campanha presidencial e Moscou.

Não podemos esquecer, porém, que Assad é um líder sanguinário laico responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas, embora não ofereça risco ao Ocidente e proteja minorias religiosas como a cristã. As outras duas grandes forças na Síria são o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, e grupos rebeldes ligados à Al Qaeda, como a Frente de Conquista de Levante (antiga Frente Nusrah) – os curdos, aliados de algumas facções árabes, atuam apenas perto da fronteira com a Turquia, bem longe de Damasco. Se derrubarem Assad, o ISIS e acima de tudo a Al Qaeda se fortalecem. Insisto, não sonhem com “rebeldes pró-democracia” na Síria.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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