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Quem é o Michel Aoun, o cristão eleito presidente do Líbano?

gustavochacra

31 Outubro 2016 | 11h02

Michel Aoun, maior líder político cristão do Oriente Médio, foi eleito presidente do Líbano nesta segunda. Ele será o único chefe de Estado seguidor do cristianismo do Oriente Médio – em Israel, é judeu. Nos demais países, são muçulmanos sunitas, a não ser no Iraque e Irã (xiitas) e na Síria (um alauíta não religioso). São raros os políticos no mundo que esperaram tanto tempo para ser presidente. No caso dele, mais de 30 anos.

Foram mais de dois anos e meio sem um chefe de Estado libanês porque as diferentes facções políticas não chegavam a um acordo. No Líbano, o presidente é eleito por dois terços do Parlamento – os deputados são eleitos democraticamente. Segundo consenso, o presidente libanês precisa sempre ser um cristão maronita, assim como o premiê precisa ser um muçulmano sunita e o presidente do Parlamento, xiita.

Aoun foi um poderoso general na Guerra Civil do Líbano (1975-90). Encerrado o conflito, acabou exilado na França para protestar contra a presença de tropas sírias no país. Com a Revolução dos Cedros em 2005 e a retirada das tropas sírias, retornou ao Líbano, onde sempre foi o líder político cristão mais popular – eu o entrevistei duas vezes para a Folha no passado. Por questões de política doméstica libanesa, ironicamente, se aliou aos seus antigos adversários do Hezbollah, formando a aliança 8 de Março. Atualmente, é idolatrado por muitos xiitas. Aoun também se aproximou do regime de Bashar al Assad, seu antigo inimigo.

Ao longo destes anos, a 8 de Março dos cristãos seguidores de Aoun e dos xiitas do Hezbollah e da Amal, além de grupos menores sunitas, se opuseram à coalizão 14 de Março, comandada pelos sunitas seguidores de Hariri e alguns grupos cristãos liderados por Samir Geagea, um líder miliciano da Guerra Civil e inimigo histórico de Aoun. Os drusos de Walid Jumblatt navegaram entre os dois lados, em uma espécie de neutralidade.

No último ano, porém, Aoun e Geagea, principais líderes cristãos, se aproximaram. E, mais recentemente, o novo presidente libanês também conseguiu um acordo com Hariri. Tudo isso sem abandonar a aliança com o Hezbollah. A eleição dele encerra um período de crise institucional no país. Também deve abrir espaço para Saad Hariri, principal líder político sunita do Líbano, voltar ao cargo de primeiro-ministro. Isso é importante, pois Hariri tem ótimas relações com o Ocidente, além de se opor ao radicalismo de alguns grupos sunitas. O posto de presidente do Parlamento segue com Nabi Berri, do grupo xiita AMAL (o Hezbollah tem apenas alguns deputados e ministros).

No fundo, todos no Líbano entendem ser necessário manter a estabilidade política e uma economia em crescimento. Não é uma tarefa fácil, tendo como vizinhos a Síria em Guerra Civil ao leste e norte, Israel, formalmente um inimigo, ao sul, e uma divisão sectária de cerca de 40% de critãos de 60% de muçulmanos sunitas e xiitas, além dos drusos. Mas, até agora, tem dado certo. E o país deve se fortalecer mais ainda. Hoje Beirute, por incrível que pareça, é uma das capitais mais seguras no mundo árabe, com uma vibrante vida noturna e coexistência religiosa. Certamente, a capital libanesa oferece mais segurança do que todas as capitais brasileiras.

Sem dúvida, esta divisão de poderes entre grupos sectários é difícil de entender. O Parlamento e os ministérios também se dividem entre metade cristã e metade muçulmana mais drusos, com subdivisões entre denominações do cristianismo (maronita, ortodoxo, melquita, armênio, siríaco) e islamismo (sunita e xiita). Existe um movimento chamado Beirute Medinati (Minha Cidade de Beirute) não sectário e com uma agenda moderna. É importante, especialmente no âmbito municipal. Mas o equilíbrio entre as forças políticas é o mais importante neste momento.

A eleição de Aoun é uma boa notícia também para Israel e Síria. O risco de um conflito contra os israelenses se reduz abruptamente. Não é do interesse do novo presidente, do futuro premiê e também do Hezbollah um confronto. Também é uma boa notícia para a Síria, já que o cenário político libanês indica que há um certo consenso sobre conflito sírio e uma aparente consolidação da vitória de Assad, especialmente nas áreas fronteiriças com o Líbano, incluindo Damasco.

Obs. Os cristãos do Oriente Médio não tem relação alguma com os evangélicos no Brasil. São seguidores de religiões cristãs antigas. Os cristãos maronitas, por exemplo, embora estejam em comunhão com a Igreja Católica, possuem patriarca e rito próprio, em siríaco, que é uma língua derivada do aramaico. Os cristãos grego-ortodoxos do Líbano seguem o tradicional Patriarcado Antioquino, com sede em Damasco. Os melquitas, por sua vez, são os grego-católicos. Estão em comunhão com o Vaticano, mas possuem rito oriental e patriarcado próprio, também em Damasco. Os siríacos são outra Igreja oriental antiga. É importante frisar isso, pois muitos cristãos árabes não se sentem representados por grupos evangélicos no Ocidente que dizem falar em nome deles. Mas o Papa Francisco, no entanto, é assim muito respeitado, mesmo pelos ortodoxos. E os maronitas e os melquitas seguem o Vaticano, como disse acima. O patriarca maronita, Bechara Rai, inclusive, é cardeal.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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