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Quem foi Saleh, ex-ditador do Yemen, morto hoje em Sanaa?

gustavochacra

04 Dezembro 2017 | 15h57

O ex-ditador do Yemen Ali Abdullah Saleh, morto hoje em Sanaa, chegou ao poder em 1978. Na época, o Yemen ainda era dividido em duas nações. O Norte, tribal, aliado da Arábia Saudita. O Sul, socialista, aliado da União Soviética. Após conflito entre os dois lados e o fim da Guerra Fria, Saleh foi o grande responsável pela unificação do Yemen em 1990, se tornando também o líder de todo o país.

Durante estas mais de duas décadas no poder, Saleh manteve uma aliança com a Arábia Saudita e considerava inimigos os houthis, que são um movimento político seguidor da vertente zaidi do islamismo, derivada dos xiitas. Dez anos atrás, o turismo crescia no Yemen e o país era destino de europeus e americanos em busca de aprender árabe. Mas ao redor de 2009 e 2010, a presença da Al Qaeda na Península Arábia cresceu no território iemenita e a instabilidade fez deteriorar acentuadamente a situação. Visitei Sanaa naquela época para realizar reportagens para o Estadão. Foi das experiências mais impressionantes que tive na vida.

O Yemen é uma nação pobre. A mais pobre do mundo árabe. Seus habitantes do sexo masculino costumam se vestir com roupas tribais e têm um facão, na altura da cintura. As mulheres se cobrem todas, normalmente de preto. É o segundo país com maior número de armas per capita, depois dos EUA. Muitos iemenitas usam qat, uma droga, todos os dias. No fim de tarde, vendedores de qat tomam conta das ruas e as pessoas se enfileiram para comprar esta folha. Lembro de organizar um seminário para entrevistar médicos, advogados e empresários. Todos criticaram o uso do qat. E todos usaram qat no encontro. Sanaa, com 2.500 anos de idade, assim como outras cidades iemenitas, também chama a atenção pelos seus “arranha-céus” de séculos de existência. São prédios de oito, dez andares em alguns casos com mais de um milênio desde a construção.

Saleh, em 2011, parecia estar sólido no poder. Mas não resistiu às manifestações da Primavera Árabe. Foi deposto e substituído por seu vice, Abdrabbuh Mansour Hadi, um velho aliado. Mesmo fora do poder, Saleh manteve a lealdade das guardas republicanas. Há três anos, em uma guinada, o ex-ditador decidiu se aliar aos houthis, que sempre tiveram uma presença forte no Norte. Unidos, conseguiram retomar Sanaa e afastar o governo oficial de Hadi. A Arábia Saudita decidiu intervir para defender Hadi e eclodiu a guerra, ainda em andamento.

Nos últimos meses, a Arábia Saudita, sob o comando do príncipe Mohammad bin Salman, decidiu, via Emirados Árabes, se aproximar de Saleh. Após amplas negociações, o ex-ditador rompeu com os houthis para passar para o lado saudita. Os houthis, que recebem um certo apoio do Irã, não toleraram a traição do ex-ditador e o mataram hoje.

A tendência, com a morte de Saleh, é a Arábia Saudita sair beneficiada. Afinal, uma semana atrás, os sauditas enfrentavam as forças leais a Saleh e os houthis. Agora enfrentarão apenas os houthis. Claro que seria melhor com o apoio de Saleh, mas ele fora da equação ainda indica um resultado favorável aos sauditas. Além disso, seguidores do ex-ditador tendem a manter a aliança com os sauditas.

E, para completar, se vai mais um dos antigos líderes árabes, depois de Saddam e Kadafi.