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Quem são os cristãos coptas e os cristãos coptas católicos? O texto é legal, sério

gustavochacra

29 Abril 2017 | 19h19

Os cristãos coptas seguem uma vertente do cristianismo oriental independente de outras igrejas cristãs e com seu próprio Papa, Teodoro II, escolhido em sorteio feito por uma criança de seis anos de olhos vendados a partir de uma lista tríplice colocada em uma urna. Foi este Papa quem se reuniu com Francisco neste fim de semana. E, assim como o Papa Católico é o sucessor de São Pedro, o Papa Copta é o sucessor de São Marcos. Ao todo, os coptas representam cerca de 10% da população egípcia e existem desde o primeiro século depois de Cristo.

Há, no entanto, outras minorias cristãs no Egito que, juntas, não chegam a representar nem 2% da população, incluindo cristãos grego-ortodoxos e os coptas católicos. E quem são coptas católicos? São cristãos que estão em comunhão com o Vaticano, aceitando a autoridade do Papa católico. Seguem, porém, a liturgia copta (ou alexandrina). Noto que copta quer dizer literalmente “egípcio” na língua egípcia antiga e alexandrina deriva de Alexandria, que era a sede da Igreja Copta, atualmente baseada no Cairo – assim como a Igreja grego-ortodoxa antioquina (de Antióquia, atual Antakia) mudou sua sede para Damasco. Aliás, Alexandria, em árabe, é Iskandaria. Iskandar é Alexandre, o Grande. Nome bonito, não? Queria colocar em um filho homem, Iskandar Chacra, que por sinal é o nome de um tio-bisavô libanês que imigrou para New Hampshire.

Os cristãos, atualmente, são perseguidos no Egito, sendo alvos de atentados terroristas, embora contem com a proteção do ditador Sissi. No passado, foram perseguidos por outros cristãos quando o Egito era dominado pelo Império Bizantino e chegaram a preferir o domínio islâmico. As perseguições a eles começaram a aumentar depois da chegada de Nasser ao poder nos anos 1950, embora ele fosse nacionalista árabe, e não extremista islâmico – curiosamente, houve muitos nacionalistas árabes cristãos egípcios, libaneses, palestinos, sírios e iraquianos. Na época, dezenas de milhares de judeus foram expulsos do Egito.

O cenário para os cristãos continuou ruim nos anos de Sadat e do Mubarak. Se no Líbano os cristãos, majoritariamente maronitas católicos (rito siríaco, mas em comunhão com o Vaticano), sempre possuíram poder político (presidente do Líbano e chefe das Forças Armadas, por consenso, têm de ser cristãos maronitas), e na Síria, ondes os cristãos são majoritariamente cristãos grego-ortodoxos antioquinos, eles sempre foram elite, no Egito eles possuem enorme presença entre camadas mais humildes, apesar de uma elite cristã em Alexandria e no Cairo – lembram do Boutros Boutros Ghali, secretário-geral da ONU? Elite cristã copta, curiosamente casado com uma judia egípcia. E Boutros, claro, quer dizer Pedro em árabe (e o Teodoro é Tawadrus)


Desde a Primavera Árabe, os ataques a cristãos no Egito aumentaram ainda mais, com constantes atentados terroristas, como no Domingo de Ramos. Este foi um dos motivos de o Papa ter escolhido visitar o país, apesar de os católicos serem a minoria da minoria cristã. Aliás, há um patriarca copta católico. O atual é Ibrahim Isaac Sidrak, que sucedeu Antonios Naguib, que, além de patriarca, era também cardeal do Vaticano – noto que o patriarca cristão maronita, Bechara Rai, também é cardeal do Vaticano. São eles, inclusive, que usam roupas diferentes no conclave.

Como sempre falo, é muito importante conhecer o cristianismo oriental. Tenho interesse, admito, porque esta é origem dos meus avós paternos libaneses – meu avô, cristão grego-ortodoxo, e minha avó, cristã grego-católico (melquita). No Brasil, algumas pessoas pensam haver apenas católicos e evangélicos no cristianismo. Insisto, os cristãos coptas (não os coptas católicos) existem desde o primeiro século depois de Cristo. E tem caldeus, os armênios, os siríacos… Vem livro meu sobre os cristãos do mundo árabe em breve.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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