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TEERÃ (PARTE 4) – Brasil e Turquia querem virar gente grande e irritam EUA

gustavochacra

19 Maio 2010 | 08h00

“Este é o momento de discutir se nós acreditamos na supremacia da lei ou na lei dos supremos e superiors. Enquanto eles ainda têm armas nucleares, de onde é que tiram credibilidade para pedir a outros países que não as tenham?”, Recep Tayyp Erdogan, premiê da Turquia

“Está parecendo que os EUA quiseram dizer ao Brasil e a Turquia – pronto, agora vocês saiam do tanque de areia, para deixar que nós, os meninos grandes, possamos brincar”, jornalista americano, durante entrevista no Departamento de Estado, segundo reportagem de Patricia Campos Mello

A Turquia busca se impor como um líder no Oriente Médio, depois de anos desperdiçados na sua fracassada tentativa de integrar a União Europeia. Já o Brasil, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, quer se posicionar como um líder global, e não apenas regional.

Estas ambições paralelas de Lula e do premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, que são classificados como “almas gêmeas” por alguns analistas internacionais, tiveram apoio de Washington em algumas questões, como o envolvimento do Brasil no Haiti e as tentativas da Turquia de negociar um acordo de paz entre sírios e israelenses em 2008. Em outras, houve divergências, como nas duras críticas da Turquia a Israel, um dos principais aliados americanos no mundo, durante a Guerra de Gaza, e ao não reconhecimento pelo Brasil do atual governo hondurenho de Pepe Lobo, aceito pela Casa Branca.

O envolvimento de Brasília e Ancara na questão iraniana intensificou estas diferenças entre os dois países e os EUA. Os americanos passaram todo o primeiro semestre deste ano tentando conseguir apoio para uma nova resolução com sanções ao regime iraniano. Simultaneamente, os governos de Lula e Erdogan tentavam encontrar uma saída diplomática. Nesta semana, tanto os EUA como o Brasil e a Turquia, atingiram os seus objetivos, um dia depois do outro.

Na segunda-feira, era o governo americano que estava irritado com o acordo acertado por brasileiros e turcos com o regime de Teerã. No dia seguinte, o chanceler Celso Amorim dava uma entrevista irritado para a rede de TV CNN ao comentar as iniciativas americanas de levar adiante a proposta de resolução, afirmando que, com o acordo na mesa, o Brasil não deve apoiar sanções.

“O envolvimento do Brasil e da Turquia é um interessante e significante acontecimento. Os brasileiros são líderes do sul, enquanto a Turquia integra a OTAN e é o país muçulmano que serve de ponte entre o Ocidente e o mundo Islâmico, entre a Europa e o Oriente Médio. Os dois acreditam que podem conseguir um compromisso do Irã. No G-20, estes países provaram que podem ter peso em questões econômicas. Agora, querem a mesma influência na não-proliferação”, disse em análise James Acton, do Carnegie Endowment for International Peace.

Brasileiros e turcos tentam se encaixar como protagonistas neste novo mundo, afirmou ao Estado o analista Trita Parsi. Com a vantagem, no caso do Brasil, “de ter uma boa imagem externa, especialmente em países subdesenvolvidos e emergentes”.  Os turcos ainda são vistos com ressalvas no Oriente Médio pelo seu passado otomano no mundo árabe, e de rivalidade com a Pérsia, atual Irã.

O risco, para o Brasil, é deteriorar seu papel no Ocidente e correr o risco de nunca ter sua cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. A Turquia, por sua vez, já está na OTAN e parece ter abandonado os sonhos europeus. Além disso, os turcos possuem fronteira com o Iraque, onde há dezenas de milhares de militares americanos, e o próprio Irã, sendo fundamentais para os americanos na região.

Parabéns para Rima Fakih, a libanesa que se tornou Miss Estados Unidos no domingo. Uma lição para os idiotas que acham que árabes são terroristas ou mulheres escondidas atrás de burkas

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão –
Ariel Palacios (Buenos Aires) – http://blogs.estadao.com.br/ariel-palaci… –
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-cam… –
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trev… –
e Adriana Carranca (pelo mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carr…