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Teoria dos Jogos para os Dreamers e o Muro de Trump

gustavochacra

08 Janeiro 2018 | 15h26

Os dreamers são filhos de imigrantes em situação ilegal que foram trazidos aos EUA quando ainda eram menores de idade. Tecnicamente, eles estão ilegais no país. Para contornar este problema e sem condições de aprovar uma legislação imigratória no Congresso, o ex-presidente Barack Obama tentou regularizar a situação dos dreamers por meio de ordem executiva conhecida como DACA, permitindo que eles possam permanecer, estudar e trabalhar no território americano, além de poder tirar carta de motorista e pagar impostos.

Para qualificar para o DACA, estas pessoas precisam viver nos EUA desde antes de 15 de junho 2007, terem menos de 16 anos quando entraram ilegalmente com os pais e não podiam ter mais de 30 quando a legislação foi implementada em 2012. Ao todo, cerca de 700 mil pessoas se registraram para o DACA, sendo a maioria da América Latina, incluindo milhares de brasileiros.

Donald Trump, no ano passado, decidiu acabar com o DACA. Por ter sido uma ordem executiva de Obama, o atual presidente tem poder para anulá-la. Automaticamente, os chamados dreamers podem permanecer até o período que vence sua autorização, que costuma durar dois anos, mas sem direito à renovação. A partir do vencimento, estes jovens que cresceram nos EUA e em muitos casos sequer têm memória do país de origem, correm o risco de serem deportados.

A decisão do presidente gerou pânico entre estes jovens. Agora, Trump fez uma proposta aos democratas. Ele reimplementaria o DACA em troca de os democratas concordarem com pela inclusão no Orçamento de US$ 18 bilhões para a construção/expansão de um muro na fronteira dos EUA com o México. Esta é uma promessa de campanha de Trump. Na época, porém, o então candidato dizia que o México pagaria pelo muro. Agora, porém, tudo indica que o contribuinte (incluindo americanos, residentes e os próprios dreamers) terá de pagar pelo muro pela proposta do presidente.


Os democratas ficam em uma situação delicada. Devem aceitar o custo do muro de Trump, cuja eficácia é questionada, em troca de uma legalização dos dreamers? Alguns podem dizer que o ex-presidente, neste caso, foi hábil ao aplicar a teoria dos jogos, concorde-se ou não com eles. Afinal, antes, para os democratas, o jogo era ser a favor ou contra a construção do muro – eram contra. Não havia como perder. Ao eliminar o DACA, o presidente aumentou seu poder de barganha.

Mas não é tão simples. A favor dos democratas está o fato de Trump não querer ficar associado à deportação dos dreamers, que desfrutam de simpatia da maioria dos americanos. Dois terços dos republicanos e três quartos da população dos EUA apoia uma via para a permanência dos dreamers nos EUA, segundo pesquisa da Universidade Harvard. Além disso, insisto, Trump dizia que o México pagaria pelo muro, não o contribuinte americano.

Alguns podem perguntar o motivo de Trump não conseguir aprovar o muro apenas com o apoio de republicanos, já que ele tem maioria no Senado e na Câmara. O problema é que o presidente precisa de 60 dos cem votos no Senado para aprovar o Orçamento. Como os republicanos possuem 51, seriam necessários votos democratas – e levem em conta que há republicanos contra o muro.