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Trump desistiu de uma solução de dois Estados para Israel-Palestina?

gustavochacra

15 Fevereiro 2017 | 16h12

Conforme antecipei aqui dias atrás, Donald Trump e Benjamin Netanyahu priorizarão um diálogo com nações árabes como a Arábia Saudita em busca de um acordo. Mas ambos, pelo que pudemos observar da entrevista coletiva conjunta, tendem a se focar na questão da ameaça iraniana e na normalização das relações com estas nações. A questão israelense-palestina ficará em um distante segundo plano.

Inclusive, Trump sequer cravou ser a favor ou contra uma solução de dois Estados para a resolução do conflito, quebrando décadas de diplomacia americana. Netanyahu voltou a insistir em dois pontos para aceitar um Estado palestino – 1) os palestinos devem reconhecer Israel como Estado judaico (a Autoridade Palestina, assim como o Egito e a Jordânia, com que Israel tem acordo de paz, reconhecem o país como israelense) 2) a segurança na Cisjordânia deve ficar sob controle Israel mesmo se um Estado palestino vier a ser criado.

Na minha avaliação, e ninguém é obrigado a concordar, não há qualquer possibilidade de acordo entre israelenses e palestinos neste momento e mesmo no longo prazo. Cheguei a dizer que talvez fosse o pior momento desde a Segunda Intifada entre 2002 e 2004. Mas, depois de ver a entrevista de Netanyahu e Trump, acho que a resolução do conflito talvez esteja em seu pior momento desde os anos 1970. Resumindo, não haverá Estado palestino. É quase impossível haver uma Palestina independente ao longo da Presidência de Trump, embora esta seja reconhecida pela ONU.

Sobre os assentamentos na Cisjordânia, o tema será tratado como questão de política doméstica israelense. Em relação ao Irã, Israel e EUA, apesar das críticas, tendem a aceitar o acordo nuclear firmado por Barack Obama como fato consumado, mesmo porque envolve outras potências. E as relações de Israel e EUA com a Arábia Saudita, Emirados Árabes e Bahrain seguirão boas e estes países agirão em coordenação em questões relacionadas ao Irã. Afinal, todos consideram os iranianos inimigos. Jordânia e Egito manterão seus acordos bilaterais com os israelenses. Omã e Qatar seguirão neutros. Yemen, Líbia, Síria e Iraque estão em guerra. Marrocos e Argélia não se interessam por esta questão. Tunísia quer atrair turistas israelenses. O Líbano será o último país árabe a ter paz com Israel. Irã, maior inimigo de Israel, não é árabe. Turquia, que tampouco é árabe, manterá suas relações diplomáticas e militares com os israelenses.

Obs. Netanyahu faz uma aposta arriscada ao se posicionar tão fortemente lado de Trump. O líder americano é extremamente impopular para um presidente em início de mandato e enfrenta uma série de crises. Mais grave, a maior parte da comunidade judaica (cerca de 80%) votou em Hillary Clinton e é registrada como democrata. Entre judeus americanos mais jovens, este número é ainda maior. Historicamente, Israel tem o apoio de republicanos e democratas. Mas muitos americanos anti-Trump podem adotar posições anti-Israel por causa da postura de Netanyahu. Escreverei mais sobre isso em outro post.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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