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Um relato do dia do atentado do Halloween

gustavochacra

01 Novembro 2017 | 13h03

Era dia do Halloween. Seria o primeiro que eu iria com a minha filha pedir doces nos vizinhos e dar doces para as crianças do prédio que viessem até o meu apartamento aqui em Nova York. Daria tempo para depois ir ao GloboNews Em Pauta. Mas, ao redor das 15h (no horário de NY), começam a disparar as informações de breaking news no meu celular. Havia ocorrido um tiroteio e/ou um atropelamento na região do Battery Park, no sul da ilha de Manhattan.
Vesti meu terno e tive de me despedir da minha filha. Peguei na estação do Columbus Circle o metrô da linha A, que me deixa na Globo, em Tribeca. Ao longo do trajeto, fui me atualizando sobre as informações. Já falavam em seis mortos. O metrô, que é expresso, parou na 42, 34, 14, West 4th e chegou à estação Canal 15 minutos depois. É estação fica a redação da Globo. A próxima seria a Chambers, ao lado do lugar do ataque. Fui até lá, porque ainda tinha tempo para o Em Pauta. Queria ver o que aconteceu.
Pude chegar a um quarteirão do lugar do atentado. Havia muitos jornalistas, policiais, vários curiosos e estudantes. Depois de uns 20 minutos e alguns vídeos que fiz no celular, comecei a caminhar em direção à Globo para comentar sobre o atentado. No caminho, a literalmente três quarteirões do lugar do ataque, crianças fantasiadas estavam com seus pais pedindo doces. Parei em um café, e parecia estar em uma outra dimensão. Ninguém parecia ligar que uma ação terrorista havia ocorrido a alguns metros dali.
Na redação da Globo, acompanhei pela TV a coletiva do prefeito, do governador e do comissário da NYPD. Eram oito mortos vítimas de um atropelamento e as autoridades cravavam como terrorismo. Minutos depois, às 18h daqui, entrei no ar no Em Pauta. Ao longo dos comentários, a Carol Cimenti, correspondente da GloboNews em Nova York, informou a identidade do terrorista, que era do Uzbequistão.
Terminado o programa, peguei um tripé e uma bateria para ir até o lugar do ataque para comentar o atentado para o Jornal das Dez da GloboNews. A equipe já estava lá, com a Carol, o Anderson e a Candice, nossa produtora, junto com canais de todo o mundo. Fazia bastante frio. Muitas das pessoas que trabalham comigo na Globo, incluindo o própria Anderson e a Sandra Coutinho, moram nesta região porque é perto da redação e tem excelentes escolas. Vários correm justamente nesta ciclovia. Era algo bem próximo da gente. E ainda dá para ver o World Trade Center, onde 16 anos atrás ocorreu o maior atentado da história.
Entrei no ar para comentar no Jornal das Dez. Ao redor das 20h30, terminaram as entradas minhas e da Carol. Ajudei ao Anderson a levar o equipamento até a Globo e peguei um metrô para casa. Estava difícil digerir este dia. No metrô, a maior parte das pessoas estava fantasiada indo para as festas de Halloween. Mais uma vez, meio surreal. A cidade havia sido alvo de um atentado.
Cheguei em casa, tomei banho e liguei a TV para ver a World Series no baseball. Precisava tentar me desligar dos acontecimentos do dia. Mas recebo mais um breaking news do Guardian no celular. Cinco dos oito mortos no atentado eram argentinos. Entrei no no jornal Clarin, de Buenos Aires, e vi a foto deles. Vieram para Nova York celebrar 30 anos de formatura da escola deles de Rosário. Pareciam amigos meus, do clube.
Neste momento, entendemos a dimensão do atentado terrorista. Mais até do que indo ao lugar do ataque. Percebemos que nós poderíamos ser as vítimas. E parei para ver as imagens que minha mulher me enviou da minha filha no Halloween e me assistindo no computador meus comentários na GloboNews horas antes. Como a vida é frágil. Afinal, os filhos destes cinco argentinos em Rosário nunca mais poderão ver os pais, mortos por um terrorista covarde em uma ciclovia de Nova York.