A TOCHA EM NOSSAS MÃOS

Jamil Chade

27 Abril 2016 | 20h58

Há alguns meses, recebi um convite do COI para ser uma das pessoas que levaria a tocha olímpica no Brasil. Em comum acordo com o jornal, recusei o convite. E por uma simples razão: meu papel é o de cobrir o evento e informar ao cidadão o que ele está ganhando, perdendo ou pagando por isso. Meu papel não é o de fazer parte da “família olímpica”.

Sempre tive sérias hesitações em relação ao percurso da tocha, um instrumento da propaganda nazista e usada por Hitler para promover seu regime antes dos Jogos de Berlim de 1936.

Hoje, entendo que a propaganda seja outra: a dos valores dos direitos humanos, do respeito e do movimento olímpico.

Quando o COI organizou o evento para acender a tocha, na Grécia na semana passada, um dos recados dos dirigentes era de que aquele símbolo poderia unir de novo um Brasil que vive sua pior crise como nação em décadas.


Nesse aspecto, discordo de forma profunda. Não precisamos de um símbolo para nos unir. Não é isso que ergue uma democracia. Numa sociedade cada vez mais intolerante, o que precisamos, no fundo, é da capacidade de respeitar a diversidade e diferentes opiniões, sempre que não usem os instrumentos democráticos para prestar tributo a torturadores e corruptos.

Precisamos de uma sociedade pluralista, mas cada vez menos desigual. Uma nação cada vez mais sólida em sua multiplicidade de atores. Mas cada vez menos classista, racista e xenófoba.

Se a tocha for apenas mais uma manobra para cegar a multidão, ela está fadada ao fracasso. Se ela for o palanque daqueles que estarão empunhando a tocha “por Deus, pela minha cidade e pela minha família”, melhor nem começar.
Mas se ela for o espaço para reconhecer o outro e seu papel, temos uma boa chance de transformar o evento numa surpresa aos organizadores. Está literalmente em nossas mãos.

E é por isso que, a partir da semana que vem, quando a tocha começar a percorrer o Brasil, vou estar aplaudindo de pé meus companheiros e outros tantos que também tiveram a honra de receber o convite. E por uma simples razão: respeito a decisão de cada um desses profissionais – muitos deles meus ídolos desde infância – de empunhar a tocha.

Eu, de minha parte, vou estar empunhando o lápis, o caderno e o microfone, no que acredito ser meu papel. Mas não deixarei de estar emocionado por aqueles que vão lustrar os anéis olímpicos com seu sentido de ética e, cada qual de sua própria maneira, promovendo uma silenciosa insurreição das mentes. E, de repente, nem tão silenciosa.

Que venha a tocha!