Dia de clássico mundial

Dia de clássico mundial

Jamil Chade

02 Abril 2016 | 05h20

12376866_10153389632511555_2833388822984521415_n

GENEBRA – Nos anos 50, uma partida como o Fla-Flu parava uma cidade. E isso sem redes sociais. Já dizia Nelson Rodrigues que “o Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim. O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada. E aí então as multidões despertaram.”

Mas quase 70 anos depois, o jogo continua sendo apenas o que era na década de 50 : um clássico local. Na verdade, ele é apenas um espelho do futebol brasileiro. Ninguém para na Europa, Asia ou qualquer outro continente nem para assistir ao Fla-Flu, nem a um Corinthians x São Paulo e nem a um Grenal. Quase ninguém saberia dizer hoje no mundo quem foi o último campeão brasileiro.

Hoje, Barça e Real Madrid se enfrentam. Fui a uma banca de jornais nesta amanhã num vilarejo francês e o jogo é a capa de todos os diários esportivos. Cruzei a fronteira e, em outra banca em Genebra, parecia que o jogo era na cidade. Logo depois, recebi uma mensagem de um amigo em Bangalore, na Índia, pedindo minha opinião sobre o clássico. Um repórter chinês me convidou para participar de uma mesa redonda depois da partida para falar do resultado. Nos sites dos dois clubes são colocados mapa do planeta com todos os horários que a partida poderá ser vista, da Austrália até a Califórnia.


Sim, a história da rivalidade já existia, inclusive com dimensão política. Mas quem numa torcida « neutra » em Tóquio, Nova Delhi ou em Accra estaria interessado (ou até soubesse) do jogo nos anos 50 ?

Esses clubes são também um espelho : o do futebol globalizado, que tem torcedores que sequer falam a língua da cidade anfitriã da partida e sofrem como como se o clube fosse de seus bairros, reinventando as comunidades imaginárias de Benedict Anderson. Enfim, são os espelhos mais nítidos de clubes que, com sua história, se transformaram em mega-empresas do esporte.

E nós ? Por qual motivo um Fla-Flu não poderia ter se transformado em um Barça x Real do século XXI? História temos. Estádio mítico também. Uma torcida fanática não falta.

O que não temos é uma administração capaz de abrir mão de seus interesses pessoais e colocar o futebol como prioridade. Cartolas corruptos que se enriqueceram com nossa paixão.

Nelson Rodrigues se equivocou. Ao falar sobre o clássico carioca, ele dizia que « o Fla-Flu apaixona até os neutros.” Hoje, porém, poucos « neutros » pelo mundo sequer poderiam dizer quando ocorre o próximo Fla-Flu.

Nelson Rodrigues também se equivocou quando disse que “cada jogo entre o Fluminense e o Flamengo parece ser o maior do século e será assim eternamente.” Não foi.

Enquanto a direção do Barça se senta com patrocinadores para determinar qual melhor horário do jogo para que asiáticos ou americanos possam assistir, nós continuamos esperando a novela acabar.

Com alguns dos maiores clubes do mundo, temos a trágica histórica para contar sobre como perdemos o trem da história.