Entre a Cruz e o Minarete – O Dilema Europeu

Jamil Chade

29 Novembro 2009 | 06h55

GENEBRA – A Suíça vai às urnas neste fim de semana para votar em um referendo que pode ter consequências bem além dos alpes. Os suíços aprovam ou não uma proibição à construção de minaretes em mesquistas no país. O debate ganhou proporções internacionais e grupos radicais já alertam que uma eventual aprovação da proibição pode gerar respostas violentas contra igrejas no Oriente Médio. Ontem, o Vaticano apelou para que a população vote a favor da construção dos minaretes muçulmanos, e não contra os símbolos muçulmanos. O debate é ainda o espelho de um dilema para os governos: como integrar o número cada vez maior de muçulmanos na Europa diante do crescimento de forças anti-imigração.
 
Na Suíça, são 400 mil muçulmanos, em um país de 7,7 milhões de habitantes. Hoje, existem 180 locais de culto. Mas apenas quatro deles contam com minarete. Na mesquita de Genebra, visitada pelo Estado ontem, o minarete não é usado para convocar os fiéis a rezar. Mesmo assim, na madrugada de quinta-feira, o prédio foi vandalizado antes das 6 da manhã, quando os primeiros muçulamos chegavam para rezar. A mesma mesquita foi apedrejada há poucos dias.
 
A campanha contra os minaretes foi lançada pelo Partido do Povo Suíço, de direita, e que mantém campanhas contra a imigração. Nas cidades suíças, cartazes foram espalhados com a imagem de mesquistas. No lugar dos minaretes, a fotos traziam mísseis. Um jogo de vídeo game também foi distribuído aos jovens. O objetivo é destruir minaretes, cada vez que surgem.
 
O debate começou quando uma mesquista de Berna, a capital do país, pediu a autorização para a construção de um minarete. “Os minaretes não são construções inocentes. São levantadas para marcar o território e a progressão do islã em países estrangeiros”, afirmou o deputado de direita, Oskar Freysinger, um dos líderes da proposta de banir a construção.

A direita suíça repetiu de forma insistente a frase do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que comparou os minaretes a “baionetas”. “Nós não queremos armas em nossos territórios. Os minaretes não são um símbolo religioso. São símbolos de poder”, alertou Freysinger.

Para a comunidade muçulmana na Suíça, suas mesquistas estão sendo utilizadas politicamente. Os centros religiosos abriram suas portas para qualquer suíço. “Nossos minaretes são um símbolo de liberdade religiosa”, disse Mahmoud El Guindi, um dos líderes da comunidade.

Na última sondagem realizada no país, há duas semanas, 54% da população afirmou que não votaria pela proibição na construção de minerates. Mas o problema é que a taxa de indecisos ainda era grande: mais de 15%.

Os grupos mais moderados alertam que não há contradição entre ser muçulmano e suíço. Prova disso é a equipe de futebol sub17 do país que ganhou a Copa do Mundo há duas semanas. Metade da equipe era muçulmana, com jovens filhos de imigrantes da Bósnia e Turquia.

Mas nem sempre a integração tem funcionado. Na principal prisão de Genebra, 54% dos detentos são muçulmanos, segundo os dados oficiais do Departamento de Justiça da cidade.

O tema superou as fronteiras suíças. A Organização da Conferência Islâmica enviou diplomatas para alertar o governo
suíço de que a repercussão no mundo árabe pode ser profunda, seguindo os exemplos da reação que houve contra desenhos considerados como ofensivos na imprensa dinamarquesa há alguns anos.

No restante da Europa, ela expõe o debate sobre a integração dos muçulmanos. A Holanda já proibiu sua construção e a França ainda não tem uma posição final sobre o assunto. Políticos e grupos religiosos na Alemanha, Itália e outros países também foram tomados pela discussão.

Os próprios bispos católicos na Suíça declararam na sexta-feira que são contra a proibição e que pediam a todos os católicos que votassem pela autorização. O que a Igreja teme é que seus poucos locais de culto ainda autorizados no Oriente Médio sejam alvos de retaliações.
 
Ontem, o próprio Vaticano criticou a realização da votação e também alertou para retaliações contra cristãos nos países muçulmanos. “Se alguém quer ser católico, precisa estar aberto aos outros”, afirmou Antonio Maria Veglio, presidente do Conselho Pontifício da Pastoral do Imigrante. Ele admite que o Islã, em muitos casos, não pratica uma “reciprocidade”.

Já os empresários suíços tem outro temor: seus negócios com o mundo muçulmano. Conhecida como um país neutro, a Suíça sempre teve acesso facilitado em países considerados como fechados, como Líbia ou Irã. Agora, a Câmara de Indústria da Suíça tem que a proibição da construção de minaretes afete o comércio de US$ 10 bilhões por ano entre o país e o Oriente Médio. Alguns governos já indicaram que poderão boicotar produtos suíços.

Para especialistas, a votação na Suíça ainda é um teste sobre como os países europeus estão realizando a integração de outras religiões e outras comunidades em suas sociedades. Ongs como a Anistia Internacional acusam os governos de já terem fracassado nessa integração e alertam que, um sinal negativo como o dos minaretes, pode dar a sensação a essas populações de que vivem em guetos.