Exclusivo: sobreviventes do Mediterrâneo contam suas travessias

Jamil Chade

05 Setembro 2015 | 15h49

PASSAU, Alemanha – Os barcos e botes que chegam diariamente à Europa são retratos de uma crise profunda. Mas também o espelho da sociedade. Refugiados que sobreviveram ao mar Mediterrâneo contam ao Estado que os barcos repetem as diferenças sociais em terra: os mais ricos vão em locais mais seguros – como no deck – e os mais pobres vão nos porões, com grandes chances de morrer no caminho.

A reportagem do Estado falou com três eritreus. Todos eles chegaram em barcos que saíram da Líbia e, depois de um longo trajeto e burocracia, estavam na Alemanha aguardando para eventual serem considerados como refugiados.

Se de um porto seguro a imagem de pessoas amontoadas nos barcos parece não distinguir as pessoas, Kosay Abraham conta que a realidade é bem diferente para os passageiros. “Brancos e ricos vão na parte de cima do barco. No porão, os negros e pobres”, disse.


Ele passou quatro dias no mar em 2014. “Conheci uma pessoa num café em Trípoli e acertamos um preço”, disse o africano que já havia cruzado o Saara em um caminhão, saindo da Eritreia, passando pelo Sudão e atravessando a Líbia. Num total, mais de 5 mil quilômetros percorridos em 5 meses para se juntar à sua esposa e a família dela, que já estavam na Europa.

Para ele, porém, o pior trecho foi o mar. “Eu só tinha mil euros. Paguei e me disseram que isso só me dava direito de ficar no porão. Fui jogado la e fiquei sentado sobre a gasolina por quatro dias, sem se mexer, sem comer, sem nada”, disse. “Em meu barco, éramos 300. 95 morreram”, disse. Para ficar na parte mais segura do barco, o preço era de 3 mil euros. “Só tinha árabes na parte de cima. No porão, só tinha africano”.

Hadra Denii diz que até se sente mal quando lembra da viagem. Seu barco também saiu da Líbia. Mas, antes, os traficantes a levaram a uma casa com dezenas de outras pessoas. “Eramos espancados por qualquer motivo. Eu mesmo levei um tapa por falar com minha vizinha e por três dias não conseguia ouvir bem”, disse.

Uma vez no barco, a viagem que tinha como promessa durar dois dias passou a ser um pesadelo quando se deram conta que o motor estava quebrado, em pleno oceano. “Por sete horas ficamos à deriva, balançando de um lado para o outro. Eu tinha certeza que aquele era o meu fim. As pessoas já rezavam como se estivessem se despedindo da vida. Tinha gente que começou a ter alucinações.

Semret Medhane chegou na Alemanha há um ano. Mas admite que continua tendo pesadelos pela noite. “Ainda continuo sonhando com o balanço do barco”, disse.

Todos, porém, abrem um sorriso quando a pergunta se refere ao futuro. Nos planos, estudar, trabalhar e construir uma família.

Kosay insiste que não quer perder tempo. Com sua mulher, acabam de ter uma filha. O nome escolhido para a criança não gerou debate na família, Hiwet, ou “vida” em tigrinya, a língua da Eritreia.

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