Joesley ficou “preocupado” com bloqueio de contas de Cunha na Suíça, diz delator

Jamil Chade

17 Outubro 2017 | 14h30

Funaro diz que foi até Genebra para tentar ajudar ex-deputado e evitar que seu processo fosse transferido ao Brasil

 

GENEBRA – O doleiro Lúcio Funaro revelou, em sua delação premiada ao Ministério Público Federal, que foi até Genebra para tentar ajudar o ex-deputado Eduardo Cunha e garante que, em 2015, o empresário Joesley Batista e ele estavam “preocupados” com ao bloqueio das contas do ex-presidente da Câmara dos Deputados na Suíça.

O temor era de que a medida adotada pela Justiça europeia pudesse levar à cassação do então deputado, ou que ele fosse “investigado ou a ter problemas no seu âmbito de influência política, fazendo com que o projeto tanto do depoente quanto de Joesley pudesse ficar comprometido”.

“A partir de então, as nomeações de cargos no governo federal e as definições de pauta para Camara dos Deputados deixariam de estar sob o comando de Cunha”, admitiu.

Funaro ainda conta que viajou até Genebra para acompanhar o processo junto às autoridades suíças e que esteve com o advogado de Cunha na cidade. Teria sido o depoente quem indicou a defesa do então deputado e que os custos do advogado foram em parte pagos por Funaro. A outra parte, porém, ele disse não saber quem pagou. Cunha ainda assinou uma procuração para esse advogado na cidade de Cascais.

Mas Funaro admitiu que “a situação não era boa porque os documentos apresentados pelo advogado eram muito ruins, especialmente porque o procurador (suíço) Stephen Lenz detinha vários documentos que indicavam que iriam transferir o processo de Cunha para o Brasil”. Isso, de fato, acabou ocorrendo e permitiu que o MPF indiciasse o ex-deputado.

Funaro, porém, revelou que a reunião com o advogado suíço em Genebra ainda contou com a participação de um sobrinho de João Augusto Rezende Henriques, operador de Cunha e de outros na Petrobras.

Isso teria ocorrido por conta do fato de a conta de Cunha ter sido “contaminada” por transferências feitas por Henriques. “Por essa razão o sobrinho dele estava na reunião”, disse.

Todas essas informações, segundo Funaro, eram repassadas para Joesley. O delator ainda contou que Francisco de Assis, advogado do grupo JBS, chegou a perguntar a ele se teria interesse em conhecer o advogado que prestava serviços na Suíça para o grupo e “que poderia ajudar na situação de Cunha”.

Conta – Funaro, em outro trecho da delação premiada, ainda contou que Cunha o pediu para receber 5 milhões de francos suíços em uma conta na Suíça e que esse dinheiro viria de Jacob Barata, o rei do ônibus no Rio de Janeiro. Parte do destino, porém, era Jorge Picciani, presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

“Essa conta tinha que ser na Suíça, e não em qualquer outro lugar”, disse Funaro. O delator afirmou que questionou Cunha sobre a procedência do dinheiro. Mas que recebeu garantias de que o ex-presidente da Câmara dos Deputados sabia da origem.

Ele, então, conta que “passou os dados da conta para Cunha” e que, certo tempo depois, o ex-deputado o informou que a conta “tinha sido aprovada no compliance da empresa pagadora” e que a sua conta receberia o valor.

O banco usado era o Audi, onde o delator afirmou ter mais três contas. Uma delas não era declarada e estava em nome da offshore TuinDorp Enterprises CV, constituída na Holanda.

Quando os 5 milhões de francos entraram na conta, Funaro explicou que pediu para que o banco os transformasse em dólares. O delator garante que “avisou por mensagem a Cunha que o dinheiro havia entrado”.

O ex-deputado, segundo ele, foi ao seu escritório e disse “para converter os valores em reais e para lhe entregar aos poucos”. O dinheiro, então, seguiu para um Trust chamado Volo.

A origem do dinheiro, porém, seria de Jacob Barata, empresário carioca. “Ele perguntou a Cunha de onde vinha o dinheiro; que CUNHA disse que esse dinheiro era de Jacob Barata, e que ele acertou com Jorge Picciani, sob a alegação de que seria doação de campanha”, afirma o documento da delação premiada.

“O dinheiro seria utilizado metade para campanha de deputados federais do Rio, e metade para a campanha de deputados estaduais do Rio”, explicou.

99% do dinheiro, porém, foi para Cunha, enquanto 1% foi para uma pessoa “em nome de Picciani”.

Cunha o teria avisado que a pessoa que recuperaria o dinheiro no escritório do operador se apresentaria apenas como Milton. Mas quando chegou, essa pessoa dizia que havia sido enviado “por parte de Picciani”.

Por meio de uma nota, Barata rejeita as acusações. “A defesa de Jacob Barata Filho repudia os boatos sobre depoimentos cuja existência ou eventual teor é desconhecido da defesa. Além disso, reitera que é falsa e caluniosa a história alegadamente narrada pelo delator”, disse.