Lava Jato levou os bancos suíços ao divã?

Lava Jato levou os bancos suíços ao divã?

Jamil Chade

13 Abril 2016 | 08h47

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GENEBRA – Há 16 anos anos morando na Suíça, já perdi a conta de quantas vezes escutei dos CEOs dos bancos locais que o país « não tolera » dinheiro sujo. Mas, cada vez que um escândalo internacional ocorre, ali eles estão, com seus nomes implicados. Foi assim com Sani Abacha, Filipinas, México, Paulo Maluf, Primavera Árabe e, agora, com a Petrobras. Isso sem contar os Panamá Papers.

Mas, agora, algo curioso ocorre. Pela primeira vez, escuto os responsáveis pelos controles dos bancos indicar com um tom realista de que, talvez, os bancos falharam. Falharam em agir para evitar a lavagem de dinheiro ao permitir que ex-diretores da Petrobras e políticos brasileiros pudessem ter aberto contas no país. Hoje, um total de mil contas estão bloqueadas nos bancos suíços relacionados com o escândalo.

Em uma coletiva de imprensa em Berna, o diretor da Autoridade de Supervisão Financeira da Suíça (conhecido pela sigla FINMA), Mark Branson, reconheceu que a Lava Jato revelou os riscos de lavagem de dinheiro que ainda existem no país europeu e que o caso afetou sua «reputação».


«A Petrobras é um exemplo marcante dos riscos de lavagem de dinheiro », indicou o diretor, também citando o caso da corrupção na Malásia envolvendo o fundo soberano 1MDB. « Vários bancos suíços estão implicados no escândalo de corrupção que tocou a sociedade brasileira Petrobras », afirmou.

Branson apontou que, no total, processos contra sete bancos foram abertos pelos suíços em 2015. Três deles envolveram diretamente o caso da Petrobras. Mas se recusou a dar os nomes dos suspeitos « Iniciamos investigações contra 20 bancos. Hoje, temos processos contra sete », indicou. « Existem indícios concretos que apontam que as medidas da luta contra a lavagem de dinheiro e o processo de gestão de riscos foram insuficientes », admitiu Branson.

A Finma apontou que a « maioria dos bancos continua a se comportar corretamente ». « No caso Petrobras, três quartos dos bancos examinados respeitaram amplamente as regras da luta contra a lavagem de dinheiro », disse. « Mas esse não foi o caso para um quarto deles ».

Segundo o informe anual da Finma, também publicado nesta semana, o « caso de corrupção na Petrobras gerou várias investigações envolvendo bancos ». « A Finma quer estabelecer como as relações entre clientes estavam conectadas com o caso de corrupção e como foram lidadas diante das regras de combate à corrupção », indicou.

Outro fato avaliado foi se os bancos cumpriram suas obrigações de alertar às autoridades sobre eventuais suspeitas. Em três casos, as falhas foram « sérias ». Ou seja, não alertaram.

Segundo já revelou o Ministério Público da Suíça em março, mais de mil contas foram bloqueadas desde o ano passado com recursos avaliados em US$ 800 milhões. Essas contas se referem a pessoas e empresas envolvidas na Lava Jato, entre eles o deputado Eduardo Cunha e ex-diretores da estatal, além de tentáculos da Odebrecht e doleiros.

No total, 42 bancos registraram bloqueios de contas, entre eles o Julius Baer e UBS.

Berna já criou uma força tarefa para lidar com o caso e acertou contatos constantes com a procuradoria brasileira para permitir a troca de informações.

Mais do que lutar contra a corrupção no Brasil, porém, os suíços estão preocupados com outro fator: sua imagem pelo mundo. Na avaliação da Finma, o caso da Petrobras e do fundo da Malásia é um sinal ruim. « A reputação da praça financeira suíça é questionada em tais casos », apontou Branson. « Na medida em que o sistema bancário suíço é objeto de práticas abusivas a grande escala para fins de lavagem de dinheiro, isso da uma imagem ruim das práticas comerciais e dos controles existentes em nosso país », insistiu.

Outra constatação da Finma é de que os casos não se referem a um passado distante. Nas transações dos executivos da Petrobras, o dinheiro foi movimentado até 2014.  « O capital foi aceito pelos estabelecimentos até um passado recente», disse. « Não são problemas herdados do passado », completou.