O crime que dribla qualquer muro

Jamil Chade

06 Novembro 2009 | 12h44

Bratislava, Eslováquia  – Há um ano, a ucraniana Ania foi abordada por uma mulher em uma discoteca de sua cidade, Uzhhorod. Ela propôs à jovem de 20 anos que fosse trabalhar em Londres como modelo. Passagem, hospedagem e mesmo a alimentação estariam garantidas pela senhora, que se apresentou como um agente de manequins. Ania aceitou. Mas, já no caminho, percebeu que estava presa e impedida de sair do quarto de hotel onde se encontrava.

Conseguiu escapar por uma janela, duas semanas depois, e conta que andou toda a noite para encontrar alguém que a levasse para casa. Descobriu que estava na Eslováquia. “Não sabia nem em que país eu estava”, disse. Hoje, ela está recebendo tratamento psicológico e afirma temer até ir à escola. A pobreza e a falta de empregos nas ex-repúblicas soviéticas estão gerando um fenômeno que alarma a ONU, Estados Unidos, União Européia e entidades de direitos humanos de todo o planeta: o tráfico de seres humanos.

Dados do Departamento de Estado norte-americano estimam que até 175 mil mulheres dos países que faziam parte do bloco comunistas são enviadas para o exterior todos os anos para prestar trabalhos forçados. Isso vem se repetindo ano após ano desde a queda do muro de Berlim em 1989. 80% delas vão para a prostituição em capitais como Viena, Londres ou Berlim. Dados da Comissão Econômica da ONU para a Europa apontam que 15 mil russas e mulheres do Leste Europeu estão trabalhando na zona de prostituição das cidades alemãs.

Muitas, segundo a Organização Internacional para Migrações (OIM), estão atuando para grupos criminosos que controlam bares e boates. Esses locais seriam financiados por gangues russas, turcas e sérvias. Em Viena, 70% das prostitutas vem dos países que faziam parte do bloco soviético. Os lucros são importantes. Segundo o Departamento de Estado, os valores obtidos pelos grupos criminosos poderia chegar a US$ 9 bilhões por ano com a venda de pessoas.

Em Kosice, Eslováquia, o assistente social Jan Borko conta que vem insistindo nas escolas que trabalha para que a informação sobre o tráfico de pessoas seja difundido. “As principais vítimas são as pessoas mais vulneráveis economicamente. Mas há também muita falta de informação. Os grupos criminosos vão até cidades do interior e fazem promessas absurdas a meninas”, afirmou Borko. “Muitas acham que seu príncipe encantado apareceu”, disse. “Meu trabalho é o de prevenir, por meio da informação de que esse risco existe”, disse. Casos como esses são inúmeros.

Um deles, descoberto pela polícia eslovaca, revela que o criminoso chegou a namorar sua vítima por dois meses em Bratislava antes de propor uma viagem à Viena. Lá, entrou em um quarto de hotel e disse a vítima que já voltaria. Nunca mais apareceu e a mulher passou a ser explorada pelo dono do hotel.

“Os grupos criminosos são verdadeiras multinacionais, com funcionários de vários países e agindo em várias regiões do mundo ao mesmo tempo”, explicou a chefe do escritória da OIM em Bratislava, Zuzana Vatralova. Ela criou um número de emergência para que vítimas possam ligar para denunciar o que estão sofrendo. Mas muitas são ameaçadas por seus proprietários, que alertam que matariam alguém de sua família se ela fugisse. O próprio Ministério do Interior da Ucrânia admite que o paradeiro de 5 mil mulheres do país é “desconhecido”.