ONU denuncia morte de civis em ataques da coalizão internacional na Síria

Jamil Chade

14 Junho 2017 | 11h55

Para brasileiro que lidera inquérito, governos precisam garantir proteção a civis, mesmo ao combater EI

GENEBRA – A ONU denuncia a morte de centenas de civis como resultado dos ataques da coalizão internacional contra o Estado Islâmico na Síria. Num informe apresentado nesta quarta-feira ao Conselho de Direitos Humanos, a Comissão de Inquérito sobre os crimes na Síria constatou que, ainda que legítimos, as ofensivas contra o grupo terrorista tem gerado um número elevado de vítimas entre as populações.

O brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, que preside o organismo, aponta que o EI de fato está “perdendo território em um ritmo rápido no Norte e Centro da Síria”. Uma ofensiva ainda ocorre neste momento na cidade de Raqqa contra os extremistas. “Se tiver êxito, essa ofensiva pode libertar de um grupo opressivo a população civil, incluindo mulheres e crianças Yazidis que tem sido mantidas como escravas sexuais por quase três anos e como parte de um genocídio não tratado”, disse.

Mas, segundo ele, “a luta contra o terrorismo não pode ocorrer às custas dos civis”. “Nas áreas controladas por grupos extremistas, estamos profundamente preocupados com o aumento de civis que morrem em ataques aéreos”, disse. O brasileiro insiste que, mesmo lutando contra o EI, governos precisam seguir regras de separar a população civil dos combatentes.

No caso de Raqqa, ele denuncia a morte de “um número enorme de civis” pela coalizão internacional, assim como a fuga de 160 mil pessoas que, diante da ofensiva, se transformaram em refugiados.

Na região de Idlib, áreas residenciais de civis tem sido alvo de ataques de forças pró-governamentais por conta da presença de grupos terroristas. Em abril, um ataque químico em Khan Sheikhoun matou mais de cem pessoas.

A evacuação de áreas por parte das forças do governo, desde dezembro, também tem sido alvo de críticas por parte de Pinheiro, que alertou que alguns dos casos poderiam ser considerados como “crimes de guerra”. O regime de Bashar al Assad e grupos armados chegaram a acordos para evacuar regiões como Aleppo, Qaboun, Wadi Barada, al-Waer, Tishreen, Madaya, Zabadani, Foua e Kefraya.

Mas, se os acordos resolvem a pendência militar, o brasileiro alerta que “milhares de pessoas são obrigados se transformar em refugiados ou deslocados internos”. “Essas pessoas são vulneráveis à violência”, disse, lembrando de como mais de cem pessoas morreram ao ser evacuadas de Foua e Kefraya.

“Os acordos de evacuação geram preocupações e, em alguns casos, podem ser considerados como crimes de guerra”, denunciou Pinheiro. “No lugar de mitigar o impacto do conflito para os civis, eles parecem ser motivados principalmente por considerações militares das partes beligerantes”, disse.

Pinheiro ainda destaca que as zonas de proteção que foram estabelecidas pela Rússia, Irã e Turquia geraram uma importante redução nos níveis de violência nas regiões de Idlib e Aleppo. Em sua avaliação, esse é um modelo que deveria ser ampliado por parte do Conselho de Segurança da ONU.

Mas a violência continua no restante do país. “Os combates continuam brutais”, alertou.

As zonas de proteção tampouco garantiram o acesso de comboios para a distribuição de ajuda humanitária. Segundo Pinheiro, desde janeiro, apenas um comboio da ONU foi autorizado a entregar comida. O levantamento da entidade estima que 600 mil sírios continuam presos em áreas sob cerco militar. O resultado tem sido a fome entre crianças e mulheres.

Os crimes também são cometidos pelo governo, com ataques contra mercados, hospitais, padarias e escolas. Com mortos se acumulando e infraestrutura dizimada, “a vida de civis é tornada impossível numa estratégia de forçar uma população a se entregar”.

Acusação – Pinheiro volta ainda a acusar as potências de não agir de forma suficiente para influenciar um acordo de paz. “A única forma de acabar com o sofrimento de civis é acabando com a guerra”, disse. “Uma vez mais, estados influentes fracassaram em capitalizar na oportunidade que lhes foi apresentada”, atacou.

“Genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra não podem continuar”, insistiu. Num apelo ao Conselho de Segurança, ele alerta que o órgão é a “voz da consciência diante de atrocidades”.