Os atos secretos do Congresso Nacional

Jamil Chade

01 Novembro 2009 | 10h40

Bucareste, Romênia – O Congresso Nacional tem 10 mil funcionários, 54 cozinhas, mil faxineiras, 1,5 mil seguranças e um custo de energia de 9 milhões de reais por ano. Mas esse edifício faraônico não está em Brasília. Trata-se do Palácio do Povo, o maior edifício público civil do planeta. Isso na empobrecida Bucareste e em um cidade com mil crianças de rua em plena União Européia. O Palácio acabou se transformando em um espelho dos absurdos de um regime que perdeu o contato com a realidade ou mesmo com as teorias do socialismo. 

O Parlamento romeno foi projetado pelo ex-ditador Nicolae Ceausescu no início da década de 80. Apenas um quinto do projeto inicial acabou sendo realizado. Mas mesmo assim foi suficiente para colocar a obra no livro dos recordes e superar até mesmo as pirâmides do Egito. Apenas o Pentágono, em Washington, é maior. Mas está classificado não como um edifício público civil, mas militar.

No Palácio do Povo, os atos secretos se confundem com sua construção. Em 1983, Nicolae Ceausescu abriu uma licitação pública para que arquitetos apresentassem projetos. A vitoriosa foi uma jovem de 28 anos até então desconhecida no mundo da arquitetura. Ah sim…era a sobrinha da esposa do ditador. 

Sua ordem: tudo dentro do palácio teria de ter origem na Romênia. Mas com seu tio obrigando que houvesse telas de seda, a solução foi importar as formigas da China.

Um quinto da cidade histórica de Bucareste foi destruída para que o palácio fosse erguido, inclusive hospitais, escolas e igrejas medievais. A parte central do edifício abra-se para uma praça e uma grande avenida, também construída pelo ditador. Sua idéia era de que, da janela do prédio, pudesse fazer discursos e ser saudado por milhões de pessoas. Não teve tempo nem ocasião para isso. O primeiro que usou dessa vantagem foi Michael Jackson, em 1992. Milhões o esperavam no local projetado pelo ditador comunista.

Mas uma de suas idéias jamais saiu do papel. Ele queria a construção de um túnel entre o palácio e o aeroporto. Talvez ele estaria vivo se essa parte estivesse pronta.

Em 1989, o país viveu uma revolução sangrenta e o ditador foi executado depois de um dos processos mais rápidos da história. Foi acusado, julgado e executado em um só dia.

Com o ditador fora do caminho, os políticos se depararam com um dilema: o que fazer com o Palácio do Povo, que já estava com 75% de suas obras completadas. Depois de um estudo, concluiu-se que era mais barato terminar o prédio que derrubá-lo. A decisão foi de colocar os novos deputados para usar o prédio. Mas mesmo assim sobrava muito espaço. Passaram a alugar as salas para eventos como casamentos, leilões, cerimônias e outras atividades.

30 mil pessoas trabalharam na construção do Palácio. Muitos eram prisioneiros políticos, obrigados a trabalhar. Dezenas morreram. Mas os relatórios oficiais não citam sequer um acidente nos anos de construção.

Já nos anos de democracia, o governo romeno decidiu compensar os trabalhadores que sobreviveram às obras com um prêmio. Todos aqueles que atuaram nas obras, seja de forma forçada, assalariado ou voluntário, podem hoje se aposentar antes do restante dos trabalhadores.

Mas até hoje ninguém sabe quanto custou a obra. Não há qualquer nota. Há cinco anos, uma consultoria internacional calculou que o Palácio do Povo de Bucareste valeria o equivalente a US$ 22 bilhões em material, gastos com a destruição de monumentos da Idade Média, perda de vidas e salários não pagos. 10% do PIB da Romênia.

Sem poder reduzir o tamanho do prédio, a solução dos reformistas romenos é outra: reduzir o número de ocupantes. Em dezembro, o país vai às urnas para votar se aceita ou não a demissão de 175 deputados. Ou seja, reduzir de 475 para 300 o número total de parlamentares. Brasília sabe disso…