Pós Rio-2016, COI reconhece: o mundo mudou

Jamil Chade

10 Junho 2017 | 05h53

GENEBRA – Sem candidatos, com sua reputação em jogo e com o Rio de Janeiro falido, o COI decide modificar a forma de escolher as futuras sedes dos Jogos Olímpicos. Com apenas Paris e Los Angeles concorrendo para receber o evento de 2024 e sem qualquer outra cidade indicando que estaria interessada, a primeira medida do COI será a de dar a ambas candidatas a Olimpíada. Uma ficará com o evento em sete anos e a outra sediará em 2028.
A recomendação será votada no dia 11 de julho em Lausanne e, se aprovada, a única questão remanescente seria quem viria primeiro entre a cidade francesa ou a americana. Na prática, o COI se garante por mais de uma década, justamente num momento que tem seu modelo questionado e uma forte resistência da opinião pública no Ocidente contra mega-eventos. Fontes revelaram ao Estado que a Olimpíada de 2016 no Brasil aprofundou a rejeição ao evento.
Em 2016, o COI deixou claro que os problemas que enfrentou no Rio de Janeiro foram inéditos. Apesar de um faturamento recorde, a entidade viu o Comitê Organizador Rio 2016 terminar o evento com um deficit milionário. Nem Atenas em 2004, com todos seus problemas, fechou com prejuízo. Hoje, os escândalos de corrupção tomaram conta do debate sobre diversas instalações.
Na comunidade internacional, o que já era uma hesitação de diversas cidades em se candidatar se transformou em um forte movimento contrário. Locais como Oslo, Estocolmo, Saint Moritz, Munique, Boston, Toronto e outras optaram por se retirar de processos de escolha no COI ou de abortar planos, diante da resistência das populações.
Thomas Bach, presidente do COI, admitiu pela primeira vez que “ficou caro demais” para as cidades se apresentarem.
Para voltar a atrair concorrentes, a entidade passará a ajudar quem quiser concorrer ao evento. Além disso, vai “adequar as exigências às necessidades da cidade”, um antigo pedido de prefeitos de todo o mundo. A esperança é de que haja uma forte redução dos custos.
Povo – Bach, também pela primeira vez, admitiu que o que a população pensava sobre o evento não contava. “Há cinco anos, olhávamos se governos apoiavam o evento, se a oposição apoiava e entidades esportivas e empresários apoiavam”, disse Bach. “Falaríamos que temos um amplo apoio público. Mas o mundo, em muito aspectos, mudou”, admitiu.
“Agora é o povo. Se todos esses grupos se aliam, a população suspeita de que existe algo errado e que estariam colocando dinheiro em seus bolsos. É uma mudança de atitude. Podemos nos queixar dela. Mas não podemos ignorar”, reconheceu.
Oportunidade – Além da mudança nos critérios, o COI também adotou uma decisão para se garantir por vários anos e não passar o vexame de não contar com candidatos para futuros eventos. Se para as Olimpíadas de 2016 existiam nove cidades candidatas, para 2024 foram apenas duas. Para 2028, não existem nenhuma ainda que fale sobre o assunto. A opção, portanto, foi a de garantir e ficam com ambas. “É melhor dois pássaros na mão que um voando”, afirmou Bach.
Para o alemão, dar os Jogos de 2024 e 2028 para as duas cidades não é um sinal de fracasso. “É uma oportunidade de ouro que temos com duas grandes cidades”, justificou, elogiando como ambas prometeram usar instalações já existentes na cidade.
Bach, porém, admitiu que escolher as duas próximas sedes é “um sinal de estabilidade para os Jogos”. “Não tem nenhuma cidade demonstrando interesse para 2028”, reconheceu.
Sobre quem viria primeiro entre as duas cidades, o COI deixou claro que espera que as datas sejam negociadas agora entre a capital francesa e a cidade americana.
Em Paris, que sediou os Jogos de 1924, ninguém esconde que a cidade seja a primeira e, assim, marcar o evento de 2024 como o centenário da Olimpíada. No caso de Los Angeles, há quem defenda um evento em 2028, justamente para esperar o fim do mandato de Donald Trump.